30 de jan. de 2007
Novos tempos
- Doutor, acredito que em breve o paciente do 201 vai estar realizando seu óbito.
Ao que o médico prontamente responde:
- Sim, ele executou uma operação ilegal e teve de ser finalizado. Não estava mais respondendo.
A enfermeira, entristecida, lamenta:
- Sinto muito. Pensei que a operação tivesse sido realizada com sucesso.
26 de dez. de 2006
Cidade Baixaria
Três anos e pouco depois, acabei me mudando, de mala mas sem cuia, para a Cidade Baixa. Lá pude aprofundar ainda mais minha cidadania porto-alegrense, nas discussões políticas, culturais e mesmo inúteis regadas a, claro, boas doses de cerveja. Lá descobri que o bairro tinha uma localização perfeita; via de acesso a quase todos os cantos da cidade, fica ao lado do centro, diametralmente oposto à Osvaldo Aranha - isso sendo um ponto a favor - e banhado pela Redenção. Além disso, contava com toda uma sorte de serviços, de forma que muito poucas vezes fazia-se necessário meu deslocamento aos outros pontos do arraial.
Pois, em determinada época, percebi que o bairro havia sido invadido por uma horda de flanelinhas, sendo a maioria deles disposta a destruir a civilização e a cultura. O problema, para mim, não era nem tanto os flanelinhas, pois na época eu não tinha carro, mas os tipos suspeitos e mal-encarados que assomavam junto. E houve também uma invasão de criancinhas vendendo todo o tipo de coisas, incluindo aí coisas que não deveriam ser vendidas. "Onde, diabos, está o Conselho Tutelar?", eu pensava.
Foi mais ou menos nessa época em que fui assaltado. Uma meia dúzia de indivíduos bonezudos aproximou-se de mim e de meu amigo quando tomávamos o sorvete ordinário do bairro. Blefando que estavam armados, levaram dez reais meus. A sorte foi o pequeno valor do furto, embora o estrago pudesse ter sido bem maior. O azar foi a sensação de impotência frente à falta completa de policiamento. Apesar da nítida sensação de que não estavam armados, nós dois apanharíamos com louvor daquela pequena corja caso esboçássemos reação. Na seqüência ao episódio, passei por momentos de liberdade vigiada, quando eu saía à noite mas desconfiava de qualquer vulto que se aproximava.
Agora faz pouco mais de um ano que minha rua - a José do Patrocínio - transformou-se na nova Osvaldo. Atraídos por cerveja a preços populares, os tipos mais estranhos - normalmente vestindo preto ou calçando AllStar - tomaram de assalto minha vizinhança. Isso em si não representaria muita coisa, não fosse o fato de que boa parte deles gosta de consumir uma certa erva ilegal. Outra parte gosta de aspirar fileirinhas do pozinho branco - isso tudo a céu aberto, em plena rua, principalmente na esquina com a Sarmento Leite. Então, obviamente, a concentração de traficantes e o sortimento de meliantes aumentou como nunca visto dantes!
Os pedintes chegam e dizem que estão fazendo um favor em não assaltar. E praguejam e ameaçam caso não levem os trocadinhos solicitados. Os bonezudos andam livremente pelas ruas, contam que recém saíram da cadeia e que vão "dar um estouro" caso não se lhe passe o dinheiro e o celular. E os flanelinhas, incólumes e impolutos, zelam pelo patrimônio alheio já que o governo não o faz.
Ah, e a polícia? Bom, para não ser injusto, vejo eventualmente policiais fazendo blitz na esquina mais tranqüila e iluminada (da Lima com a República), no horário mais movimentado e seguro (até a meia-noite). Na esquina do pó e nas demais ruas escuras e, agora, obscuras do bairro, assim como nos horários em que mais se faz supor necessário o policiamento, passam de relance, às vezes até acenando para seus insuspeitos freqüentadores. Como que dissessem: "Aproveitem a noite!"
21 de dez. de 2006
Jogo de Interesses
é muito fácil ser amável, gentil e solícito.
Há reais mérito e sinceridade
quando se deseja em escambo
o afeto de outrem?
A lealdade não é virtude,
é apenas requisito de sobrevivência.
Tudo são negociatas
e os sentimentos são a moeda corrente.
20 de dez. de 2006
Das Lacunas
Não apenas me faltam palavras. Não sei exatamente o que gostaria de dizer, que tipo de emoção passar. É um infinito condensado de dúvidas e indecisão. Precisamente isso! Então, penso e não chego a texto algum. Ah, bons tempos aqueles em que conseguia escrever poemas piegas!! Hoje não passo do pensamento vacilante, do ensaio hesitante, da tentativa cambaleante e... de concreto, nada. Minto! De concreto, apenas as paredes desnudas do novo habitáculo que irá me abrigar, e a marquise que caiu quase em cima de mim.
Parece que minha capacidade de produção textual foi-se com a matrícula trancada da universidade. Mas pode ser também outro o motivo da inspiração fugidia: o vazio de emoções que se encontra em mim. Mesmo sem ter culpa, fui jogado nesse limbo confuso de sentimentos, uma profusão de afetos inúteis e raivas inócuas que, de tão fortes e intensos, formam uma absoluta e medíocre pasmaceira. Estou livre e perdido ao mesmo tempo; sem dor nem vontade.
30 de out. de 2006
Tantos planos
Nada do que foi será,
de novo, do jeito que já foi um dia.
Tudo passa,
tudo sempre passará.
Mas logo vinha a condenação. Aquele "NÃO" gigantesco, vermelho e estrondoso que pisoteava minha cabeça. "NÃO é possível". "NÃO acontecerá". "NÃO tenho chance". E então, o sonho se tornava castigo; a alegria, fraqueza; e os planos, tempo perdido de vida. Assim tem sido há muito tempo, e agora é um pouco menos do que já fora.
Já não te escondo mais nada; contei-te o que já sabias. Pelas pistas que deixei - algumas intencionais, outras não - e pelas tuas próprias observações, tua desconfiança já era uma certeza. Não preciso mais fingir que não sinto; não precisas mais esconder que sabes. A última lacuna na nossa amizade foi preenchida com transparência sincera e cristalina.
Agora a responsabilidade volta para mim. E é muito grande. A culpa não é tua, talvez minha, mas ainda choro pelo passado que não tivemos, e pelo futuro que não teremos. Choro pelos planos feitos e perdidos, pela energia jogada fora, pela chance que não existiu. Por aquilo que não veio e pelo resto que já passou. Parece que já é tarde, até para chorar.
22 de ago. de 2006
Cortina de Fumaça
e defuma teus pulmões
ressecou teu coração.
Também embaçou teu olhar,
e tornou teu sorriso amarelo.
Essa fumaça em pequenas doses,
repetidas freneticamente,
agora te esconde feito escudo.
Esconde mas não protege.
Proteger de quê?
Teu sorriso limpo,
teu olhar inocente,
tua palavra incauta
Aonde foram parar?
Teus sonhos engendrados,
teus castelos nefelibatas e
teus projetos sonhados
onde foste ocultar?
A máscara arrebatou o ator,
o escudo conquistou o guerreiro,
a fórmula tomou o engenheiro,
mas a lágrima não lavou a dor.
A dor incômoda de ser humano,
de ser frágil e incoerente,
de ser amado e ter medo de errar.
Agora queres fugir. Fugir de quem?
Assopra essa poeira,
limpa essa fuligem,
lava o rosto e levanta os olhos.
Sai detrás dessa cortina que te encobre
e volve ao teu lar amical.
Nós que aqui estamos
por ti esperamos!
31 de jul. de 2006
Despedida
Havia certa feita um rapaz, considerado por muitos como bom amigo e, que reciprocamente, os considerava assim também. Era decerto companhia agradável, pois tinha bom senso de humor, conversas quase sempre inteligentes, ânimo prestimoso e apetite por todos os quitutes e bebidas que as noites pândegas favoreciam. Segundo relatos de pessoas próximas, havia um único senão: um teimoso resíduo de melancolia, uma fenda de sensibilidade que, vez por outra, aflorava e transformava seu semblante, mesmo que contra sua própria vontade, num conflito interno de sintomas externos.
Essa tristeza era resultado de medos e complexos que, desde muito, conviviam dentro de si. Tentara já algumas vezes sufocá-los, enclausurá-los no porão de seu íntimo, esperando que desvanecessem por inanição ou esquecimento. Mas eles não desapareciam; apenas mostravam-se inertes atrás das máscaras que fabricara. Eis que, num momento incerto, esses sentimentos transbordaram de si e, atônito, viu-se encharcado deles, sentindo-se pateticamente fragilizado.
Tantas passaram a ser suas angústias, que resolveu se isolar. Não que não mais desejasse conviver entre seus amigos, mas sabia que não conseguiria ser uma companhia agradável, tão absorto que estava daquela tristeza. A alegria e a felicidade alheia lhe frustravam ainda mais, não por inveja, tampouco por despeito, mas por sentir-se incapaz de ter tal bem para si, incapaz de ser amado, inviável como ser humano.
Precisava de um tempo para si, para organizar seus pensamentos, seus sentimentos. Sabia que a solução de seus problemas sairia forçosamente de sua própria cabeça. E ainda que outrem pudesse lhe socorrer, não saberia como pedir auxílio. Decidiu então comunicar tal afastamento a seus amigos.
Escreveria um texto, que seria lhes seria remetido, ou então publicado. Nesse texto, redigido em terceira pessoa para parecer impessoal e, talvez, ficcionista, falaria dos sentimentos de um rapaz, atormentado por medos e complexos que lhe consomem a razão, e do intuito daquele em se afastar, por considerar-se incapaz de desfrutar da boa companhia dos amigos. Não havia determinado, entretanto, se esperaria por comentários ao seu texto, posto que vários outros textos havia feito sem terem recebido nem elogios, nem críticas; nem mesmo sabia se realmente haviam sido lidos. Então nutria essa dúvida, talvez semelhante àquela do leitor que, surpreso com a revelação, hesitava em comentar tal desconcerto.
24 de jul. de 2006
Xangri-lá
22 de jul. de 2006
Cansaço
21 de jul. de 2006
Silogismo
- A vontade de se presentear uma pessoa é diretamente proporcional ao amor que se tem por ela.
- A grandeza do abraço recebido é inversamente proporcional ao quadrado do valor do presente dado.
- Quanto mais se gosta de um amigo, mais sem graça é o abraço recebido!
19 de jul. de 2006
17 de jul. de 2006
12 de jul. de 2006
O Que Não Deve Ser Feito
- O Estatuto oficializa uma discriminação que lutamos há décadas e diariamente para não ter. Inclusive está na Constituição Federal que as pessoas não podem ser discriminadas por raça, cor, credo, etc.
- O Estatuto cria uma uma separação racial maniqueísta, superficial e irreal ao classificar as pessoas em "negros" e "não-negros". Ignora décadas (ou mais) de miscigenação e de entrosamento cultural que houve no país. Ignora inclusive que os africanos vieram de nações e etnias diferentes, falavam línguas diferentes e tinham religiões diferentes.
- Dessa forma, usa a prerrogativa da reparação histórica para impor sistema de cotas, com percentuais completamente arbitrários. Esses percentuais podem rapidamente passar de mínimos exigidos para máximos praticados, causando o efeito contrário ao desejado.
- Catapultar pessoas por sua cor, e não pela sua qualificação, é medida paliativa que não resolve os problemas sociais graves existentes, como a deficiência e escassez da educação pública.
- O Estatuto ignora que um dos grandes méritos da democracia brasileira foi lançar à pobreza também os brancos, oriundos principalmente do êxodo rural. A que destino estará fadado um branco, pobre, estudante do ensino público?
- O Estatuto ignora que a cultura afro-descendente já é amplamente divulgada e a base mais forte da cultura nacional. É impossível pensar o Brasil sem lembrar das várias influências artísticas e culturais de origem africana, que já dominam a preferência dos grandes meios de comunicação.
- O Estatuto cria oficialmente três castas no país: a dos que conseguem as coisas por mérito próprio; a dos que conseguem por ser beneficiado pelas cotas; a dos que não conseguem nada.
- Aliás, como pode se chamar de "Estatudo da Igualdade", se prevê justamente o oposto, que é discriminação e favorecimento?
- Enfim, está na hora dos homens públicos pensarem com responsabilidade nas questões sociais, como planejamento familiar e controle de natalidade, amplo acesso à educação pública, gratuita e de qualidade, saneamento e urbanização das favelas. O resto é demagogia pura e simples.
11 de jul. de 2006
Aldeia Global
Enfim, o Egito virou uma república árabe, na língua, na escrita e na religião. Os árabes, outro povo semita, espalharam sua cultura mundo afora, e ela foi sobretudo absorvida na África Setentrional. Apesar da invasão árabe em vastas áreas da europa, a sua língua não vingou, exceção feita à Malta. Lá se fala o maltês, uma derivação do árabe, mas escrito com alfabeto latino, talvez porque a população seja majoritariamente católica.
Já na Ásia, terra de povos muito antigos e culturas muito bem arraigadas, a religião e a escrita venceram, mas não a língua. É o caso do Irã, país onde se fala persa, escrito agora com as letras escorridas importadas do árabe. Os persas, povo indo-europeu muito antigo, rezam agora voltados para Meca. O persa, por sinal, é uma língua próxima do urdu, também escrito com alfabeto árabe, língua oficial do Paquistão, que como sabemos, também é um país muçulmano. O interessante é que o urdu é praticamente a mesma língua que o hindi, língua oficial da Índia. Motivos religosos fizeram o primeiro ser influenciado pelo árabe e o persa, e o segundo pelo sânscrito, língua clássica e sagrada do bramanismo, principal religião dos indianos. Por sinal, a maioria das línguas faladas na Índia usam a escrita chamada devanagári, inclusive o próprio hindi.
Os turcos, por sua vez, são originários de tribos altaicas, parentes dos mongóis. Convertidos ao islamismo, já escreveram usando o alfabeto árabe, mas hoje o fazem com o romano. Assim como a maioria das repúblicas turcomanas da Ásia Central, embora algumas ainda usem o cirílico, resquício da época sob influência russa. Mesma influência que ainda justifica a escrita cirílica usada para o mongol.
A Rússia, sede de um dos patricarcados ortodoxos, é um país de maioria eslava. Os eslavos também são outro grupo indo-europeu. De uma forma geral, usam o cirílico quando são ortodoxos, e o romano quando são católicos. Assim, na Sérvia a língua que é escrita ao jeito de Moscou, na Croácia é escrita à moda de Roma. Aliás, as ex-repúblicas da Iugoslávia formam uma sopa étnico-religiosa muito peculiar.
Alheios a toda essa suruba cultural que virou o Velho Mundo, os nossos índios foram catequizados e viram suas culturas suplantadas pelo português crioulo do Brasil. Desprovidos de sua identidade, já foram vítimas de tentativas de escravização e de extinção. Agora vivem sob a política oficial de preservação, embora seja discutível o que se deseja preservar, pois são dependentes de uma sociedade que os coloca à sua margem. Hoje estão aí, vendendo cestinhos nas feiras, ou morrendo de tédio e cirrose alcoólica.