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5 de abr. de 2013

Por que sou ateu

Lembro ter ganhado uma "Bíblia para Crianças" da professora da 2ª série. O livro era bonitinho e, mesmo que eu não procurasse conforto na sua história, ela me parecia ser verdadeira. Bem antiga, mas verdadeira; contava como o mundo surgiu e era o que era. Acho que foi o primeiro contato com Bíblia que tive. O lado paterno da minha família é luterano; o materno, católico. Lá perto da época da catequese e da 1ª comunhão, descobri que havia versões diferentes da Bíblia: a dos católicos e a dos evangélicos. "Como assim, versões diferentes? Não é a história do mundo, a palavra de deus?" eu pensei. Fiquei mais confuso ainda quando descobri que os próprios 10 mandamentos, o cerne condutor da moral cristã, também tinha versões. Como podia aquilo? Dez ordens dadas diretamente por deus... e cada grupo tinha uma versão diferente! Bom, alguém deve ter comentado que 'os homens deturparam' a Bíblia através do tempo. Mas, então, como eu saberia qual a mais fiel? Qual a mais certa? Nessa época, comecei a desacreditar na Bíblia como livro divino, aceitando, no máximo, inspiração divina.

Eu ia à escola, e na escola aprendia coisas várias que faziam muito sentido na vida e no mundo que eu via ao meu redor. Em Estudos Sociais, Matemática, Português. Lá pela 7ª série, quando começaram as aulas de História Geral e de Geografia do Mundo, comecei a montar um quebra-cabeças na minha mente, um que eu nem sabia existir, mas que agora estava lá, posto, com as peças encaixando e fazendo todo o sentido. Descobri que havia outras religiões; que praticamente todo povo inventava sua própria. Descobri que havia uma linha evolutiva entre animismo, politeísmo, diteísmo, monoteísmo... Histórias bíblicas começaram a fazer tanto sentido para mim quanto as da mitologia grega ou egípcia. Eram histórias, fábulas. Perguntava por que um camponês do Nepal seria condenado ao inferno por não ser cristão, se provavelmente ele nunca teria sequer ouvido falar sobre Cristo em toda sua vida. Assim como boa parte daqueles que não são cristãos. Não fazia sentido algum e pensei, como aquela piada que circula pela Internet, se mais de uma religião condena seus não adeptos ao inferno (e pelo menos cristianismo e islamismo fazem isso), e ninguém pertence a mais de uma religião ao mesmo tempo, então toda a humanidade morrerá no fogo do inferno!

Nessa época, deixei de levar o cristianismo a sério. Passou a ser mais uma doutrina, com seus adeptos, não mais importante que maoísmo, mercantilismo, feudalismo, socialismo. Não era algo que embutia uma verdade divina ou qualquer outra prerrogativa inquestionável. Ao contrário, eu enxergava um paradoxo fundamental: os cristãos adotaram o mesmo deus dos judeus, autoproclamados o povo escolhido e que, no entanto, ignoravam totalmente a vinda de Cristo. Como se resolve esse impasse? "O meu deus é o deus de Israel, dos judeus; Cristo é seu filho, mas o povo escolhido por ele não admite isso!" É muita incoerência numa única doutrina! Os árabes foram mais espertos; pegaram o mesmo deus, mas numa versão 2.0: o deus dos muçulmanos não é muito gentil com judeus e cristãos.

Passei um tempo sendo um teísta sem religião, o que me permitia ser um tanto ecumênico: podia conversar com qualquer pessoa a respeito da vida, do universo e de tudo o mais sem que suas confissões atacassem qualquer crença minha, pois eu não tinha mais crenças. Alguém me dizer que acreditava na religião A ou B era tão relevante quanto dizer que era sócio da Ginástica ou do Aliança, ou que votava no PDS ou no PMDB. Questões puramente pessoais, visões de mundo, nada especial. Ainda imaginava, entretanto, existir um criador, um ser superior. Imaginava, mas não sentia.

Com o tempo, e vendo as mazelas do mundo, e a diversidade das coisas e das criaturas no mundo, e como todas os efeitos têm suas causas, ainda que não consigamos explicar todas, comecei a duvidar que existisse esse criador supremo. Como também não o sentia, achei por bem me declarar de acordo com meu pensamento: eu era ateu. Passei a acreditar somente no que eu via, no que era comprovável. Bom, eu não vejo vírus e bactérias, mas sei que existem, porque pessoas mais estudadas e com os instrumentos adequados conseguem ver e mostrar que existem. Conseguem fazer testes. Repetir experimentos. Nada disso a religião conseguia fazer comigo, nada que não me exigisse "transcender" a razão.

Naquele momento me senti um iluminado. Imaginei ser imune a enganações. Senti como se eu e os ateus em geral tivéssemos uma visão mais clara, mais inteligente, do mundo. Passei a dividir a humanidade em duas classes: pessoas inteligentes, como eu e os demais ateus, e pessoas burras, subjugadas por baboseiras de alguma religião das várias que existem. Eu classificava todo mundo dessa maneira e admito que tinha internamente um certo deboche, preconceito, contra quem professasse alguma fé. Mesmo pessoas que eu amava e admirava eram jogadas na vala mental dos "burros". Confesso que comecei a ficar um tanto pedante e intolerante nessa época. Até que senti na pele o preconceito por ser ateu. Uma colega do trabalho certa vez me disse: "Puxa, mas deve ser tão triste não acreditar em nada!" Ao que respondi que acreditava nas pessoas, nas relações. Ela completou dizendo: "Nunca pensei que um ateu pudesse ser legal." Naquele momento me dei conta de que a classificação que eu fazia era preconceituosa, burra, inútil e injusta. Talvez haja algum gene que favoreça algumas pessoas a ter fé. Não sei. Mas isso não desmerece quem são. Não desmerece, nem abona. As pessoas são o que são, o que fazem. Se querem acreditar em gnomos ou qualquer outra coisa, que o façam. Eu não tenho nada a ver com isso.

Então esse sou eu. Como digo, o verbo "ser" do português é muito forte; ele dá um sentido de permanência, de eternidade, que nada no universo tem. É mais correto dizer "este estou eu". Eu estou ateu. Se, algum dia, alguém conseguir me provar a existência de um deus, então não vejo por que não aceitá-la. Até lá, estarei ateu. Como estou ateu, não quero convencer ninguém sobre isso. Não quero converter pessoas crente em ateias, nem dizer que não terão salvação ou que estão perdendo seu tempo de vida com bobagem. Como se eu não perdesse tempo da minha com outras bobagens. Juro, não quero converter ninguém. Quero seguir minha vida de pacato cidadão, pagando meus impostos, amando meus amigos e me divertindo com eles, fazendo-os felizes e tratando bem e com respeito quem está ao meu redor.

E espero, exijo, ser tratado com respeito também. Não quero pessoas apontando o dedo para mim e dizendo que peco, que blasfemo, que isso e que aquilo. Quem tem envergadura moral para dizer qualquer coisa sobre mim ou sobre qualquer outra pessoa? Não quero ser obrigado a frequentar lugares públicos que tenham símbolos religiosos. Não quero que as leis do meu país sejam orientadas por esta ou aquela religião, porque eu não tenho religião alguma. E muita gente também não tem. Não quero ver menções a religião no dinheiro que uso. Então fico realmente contrariado quando vejos grupos tentando se apoderar do congresso para enfiar goela abaixo (dos outros) as suas convicções religiosas. Será que gostariam de um deputado babalorixá na Comissão de Direitos Humanos? Ou da Bancada Xiita negociando favores com o governo federal? Só um estado laico respeita todos e tem lugar para todos - principalmente para os que tem e se importam com religião. Estados teocráticos perseguem e ofendem quem não reza a mesma cartilha. Respeitar o outro não é apenas deixar de agredi-lo física ou verbalmente. Respeitar é deixar que viva em paz, com seus valores, sem tentar impor os próprios valores e crenças.

Por favor, cristãos, vivam suas vidas e deixem-nos viver as nossas!

19 de out. de 2007

Estado e religião

Sou católico de batismo, mas não professo a fé há muitos anos. Entre os vários rótulos que podem me atribuir, considero "agnóstico" o menos pretensioso. Dito isso, quero abordar um assunto em que penso seguidamente: a relação entre estado e religião. Começo o texto refletindo sobre as causas da tão propalada harmonia inter-religiosa que existe no país.
É fato que ela existe. Mas não sei se sua causa principal seja, de fato, a boa vontade ou a tolerância inata do brasileiro. Já fomos um país oficialmente católico e ainda o somos estatisticamente. Mas que tipo de catolicismo praticamos (pretérito perfeito e presente) aqui? Um catolicismo lânguido, sem muita vontade com suas obrigações, ao exemplo do que somos como sociedade em geral. Parece-me que até na religião tratamos as questões com "jeitinho".
Muito se tem falado sobre essa praga cultural nacional, que vai do burlesco furar fila do cinema até os grandes escândalos de corrupção em Brasília, passando pela cumplicidade com a pirataria e o contrabando e pela complacência, por vezes pasmada, a tudo isso. Essa indiferença, quase generalizada, que faz com que não batalhemos cotidianamente por uma sociedade melhor, calcada no exemplo individual. Talvez esse "tanto fez, tanto faz", transposto ao campo religioso, é que tenha nos levado a essa convivência harmoniosa. Sim, porque me lembro muito bem de ler, nas cartilhas de catequese e de crisma, condenações veementes a outros tipos de manifestações religiosas, mormente ao espiritismo e ao candomblé. Por que essas condenações nunca tiveram um efeito belicoso? Creio que é pelo mesmo motivo que leva o católico brasileiro médio a não ir à missa, a não comungar, a não confessar, a não pagar o dízimo. Se for assim, o jeitinho, através de seu viés de indolência religiosa, acabou por produzir a boa convivência entre credos tão distintos,
inclusive o sincretismo.
Outro ponto que me chama atenção é a questão dos direitos civis. Temos avançado muito nesse campo, e há muito ainda a ser discutido e decidido. Mas fazemos isso a despeito das orientações de Roma. Divórcio e inseminação artificial são alguns dos exemplos que me vêm à memória agora. Mas vale dizer que as âncoras papais não são os únicos entraves ao avanço das conquistas civis. Lembro um caso de médicos que precisaram de garantir na justiça uma transfusão de sangue para um menino criticamente doente, porque a agremiação religiosa de seus pais considerava tal ato ofensivo a deus, o que os fez proibirem a transfusão.
Isso posto, vale dizer que estamos muito mais avançados em jurisprudência do que em legislação, uma vez que nossos legisladores têm o débito moral com seus eleitores e, muitas vezes, não avançam em questões cruciais por temerem comprometer suas reeleições. Nesse contexto, causa-me preocupação o crescimento de certas linhas neopentecostais efusivas, especialmente quando associadas a meios de comunicação em massa. Em suas pregações, os pastores e bispos, muitos autoproclamados, não escondem seu desamor ao catolicismo, à umbanda e a tudo que for diferente e não lhes pagar o dízimo. E sua condenação veemente atinge, obviamente, tudo que não se encaixar nas leituras inspiradas que fazem da bíblia, muitas vezes literais.
Diante desse cenário, cabe a pergunta: a harmonia religosa será mantida caso cristãos exaltados passem a ser maioria da população? Até que ponto os direitos civis estabelecidos estão garantidos? Até onde é possível manter um estado de direito - e de fato - laico, se a população entrar em ebulição ou conflitos religiosos? É certo que o estado brasileiro ainda sofre de lacunas na sua laicidade, como os feriados católicos e os crucifixos suspensos na maior parte das repartições públicas. Ou ainda como a lei estadual que permite sacrifício de animais para oferenda em cerimônias de origem africana. Mas felizmente, a ingerência religiosa acaba por aí. Por enquanto.

22 de mar. de 2007

Deus-abafo

Qualquer pessoa que empunhar a bíblia - ou qualquer outro livro sagrado - para embasar seus argumentos, receberá de mim a mesma consideração e apreço que dou a jumentos. Minto: aos jumentos tenho, com certeza, mais admiração e compreensão.

30 de mai. de 2006

Conversas Cruzadas

Abaixo transcrevo uma conversa que travei com um colega meu, ao qual chamarei de Buneco.

Nunca forneça sua senha ou o número do cartão de crédito em uma conversa de mensagem instantânea.

Buneco diz:
O chefe está?

Usermaatre diz:
Não, ainda não nos honrou com sua presença.

Buneco diz:
A que horas ele tem costumado chegar?

Usermaatre diz:
Não sei, ele não sói chegar em um horário fixo

Buneco diz:
ok

Usermaatre diz:
Digamos que ele tem um invervalo

Buneco diz:
OK

Usermaatre diz:
[12:00; 19:00]

Buneco diz:
ah tá bem... é claro...

Usermaatre diz:
Isso considerando um intervalo fechado...

Buneco diz:
Ou será (12:00;19:00) é aberto, semiaberto à esquerda ou semiaberto à direita ??

Usermaatre diz:
Poderia ser também (12:00; 19:00]

Usermaatre diz:
Pois é...

Usermaatre diz:
Talvez fosse prudente escrever "ele chega às X horas, tal que X >= 12:00"

Usermaatre diz:
Mas o Cel. Vespúcio já esteve aqui à sua procura

Buneco diz:
Talvez melhor ainda : x, tal que x € R e x>= 12:00

Usermaatre diz:
Ah, isso fica subentendido na medida em que foi escrito "X horas". Ora, X então é um hora e pode ser representado por um número real, ainda que formatado em horas:minutos

Buneco diz:
Não, mas FORMALMENTE falando, não tem esta de subentender...

Usermaatre diz:
Ora, é uma dedução lógica, puro modus ponens!

Buneco diz:
Não tão lógica assim. Afinal, podemos dizer x, tal que x € Q ao invés de R

Usermaatre diz:
Nah, essa é uma limitação desnecessária. O tempo pode ser irracional.

Buneco diz:
O tempo sim, mas as horas e os minutos (ou horas fracionárias), não .

Usermaatre diz:
Além do mais, o símbolo de euro não é reconhecido como operador matemático entre objeto e conjunto; logo, a tua formalização acima não é uma wff (well formed formula)

Buneco diz:
Sim, mas está subentendido que tu irias entender o que eu quero dizer...

Usermaatre diz:
Nah, não tem essa de subentender.

Buneco diz:
Como não ?????

Usermaatre diz:
Ah, então uma hora pode, e outra não pode? Isso é paradoxal, meu abádico amigo.

Buneco diz:
Sim, mas se crermos em DEUS então poderemos conviver com os paradoxos

Usermaatre diz:
É, esse é mais um mistério da fé.

Buneco diz:
Pois é... agora tu falou tudo. Viste só como tem vantagem em crer ??

Usermaatre diz:
Pois é. Mas tirar vantagem é pecado. Logo, para não pecar, não creio.

Buneco diz:
Sim, mas aí temos outro paradoxo: aqueles que não creem queimarão no fogo do inferno. Ser descrente é pecado...

Usermaatre diz:
Nah. Se não creio, não tem céu nem inferno. Então posso pecar à vontade!

Buneco diz:
Aha, falácia !!! O fato de não crer não quer dizer que não exista !

Usermaatre diz:
O que importa é aquilo que sinto no meu coração, minha consciência.

Buneco diz:
Ah, mas eu não vejo o teu coração, então ele não existe.

Usermaatre diz:
Claro que existe! Eu estou vivo, então é facilmente dedutível!

Buneco diz:
Sim, mas tu podes ser uma máquina, um E.T. ou pior...

Usermaatre diz:
Não... sou uma criatura de Deus, não mais que as árvores, nem menos que as estrelas.

Buneco diz:
Bah meu, gostei dessa...

Usermaatre diz:
Boa, né?

Buneco diz:
Bah cara adorei, e isso prova a existência de Deus

29 de mai. de 2006

Utilidade Pública

A Globo prestou um dos melhores serviços de utilidade pública com a série "Operação Bola de Cristal", exibida no Fantástico. Conseguiu explicitar como operam esses videntes e paranormais que infestam o mundo afora.
Agora, poderia fazer uma nova série, talvez chamada "Operação Bíblia Sagrada", para acabar com outra enganação, muito maior...