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5 de abr. de 2013

Por que sou ateu

Lembro ter ganhado uma "Bíblia para Crianças" da professora da 2ª série. O livro era bonitinho e, mesmo que eu não procurasse conforto na sua história, ela me parecia ser verdadeira. Bem antiga, mas verdadeira; contava como o mundo surgiu e era o que era. Acho que foi o primeiro contato com Bíblia que tive. O lado paterno da minha família é luterano; o materno, católico. Lá perto da época da catequese e da 1ª comunhão, descobri que havia versões diferentes da Bíblia: a dos católicos e a dos evangélicos. "Como assim, versões diferentes? Não é a história do mundo, a palavra de deus?" eu pensei. Fiquei mais confuso ainda quando descobri que os próprios 10 mandamentos, o cerne condutor da moral cristã, também tinha versões. Como podia aquilo? Dez ordens dadas diretamente por deus... e cada grupo tinha uma versão diferente! Bom, alguém deve ter comentado que 'os homens deturparam' a Bíblia através do tempo. Mas, então, como eu saberia qual a mais fiel? Qual a mais certa? Nessa época, comecei a desacreditar na Bíblia como livro divino, aceitando, no máximo, inspiração divina.

Eu ia à escola, e na escola aprendia coisas várias que faziam muito sentido na vida e no mundo que eu via ao meu redor. Em Estudos Sociais, Matemática, Português. Lá pela 7ª série, quando começaram as aulas de História Geral e de Geografia do Mundo, comecei a montar um quebra-cabeças na minha mente, um que eu nem sabia existir, mas que agora estava lá, posto, com as peças encaixando e fazendo todo o sentido. Descobri que havia outras religiões; que praticamente todo povo inventava sua própria. Descobri que havia uma linha evolutiva entre animismo, politeísmo, diteísmo, monoteísmo... Histórias bíblicas começaram a fazer tanto sentido para mim quanto as da mitologia grega ou egípcia. Eram histórias, fábulas. Perguntava por que um camponês do Nepal seria condenado ao inferno por não ser cristão, se provavelmente ele nunca teria sequer ouvido falar sobre Cristo em toda sua vida. Assim como boa parte daqueles que não são cristãos. Não fazia sentido algum e pensei, como aquela piada que circula pela Internet, se mais de uma religião condena seus não adeptos ao inferno (e pelo menos cristianismo e islamismo fazem isso), e ninguém pertence a mais de uma religião ao mesmo tempo, então toda a humanidade morrerá no fogo do inferno!

Nessa época, deixei de levar o cristianismo a sério. Passou a ser mais uma doutrina, com seus adeptos, não mais importante que maoísmo, mercantilismo, feudalismo, socialismo. Não era algo que embutia uma verdade divina ou qualquer outra prerrogativa inquestionável. Ao contrário, eu enxergava um paradoxo fundamental: os cristãos adotaram o mesmo deus dos judeus, autoproclamados o povo escolhido e que, no entanto, ignoravam totalmente a vinda de Cristo. Como se resolve esse impasse? "O meu deus é o deus de Israel, dos judeus; Cristo é seu filho, mas o povo escolhido por ele não admite isso!" É muita incoerência numa única doutrina! Os árabes foram mais espertos; pegaram o mesmo deus, mas numa versão 2.0: o deus dos muçulmanos não é muito gentil com judeus e cristãos.

Passei um tempo sendo um teísta sem religião, o que me permitia ser um tanto ecumênico: podia conversar com qualquer pessoa a respeito da vida, do universo e de tudo o mais sem que suas confissões atacassem qualquer crença minha, pois eu não tinha mais crenças. Alguém me dizer que acreditava na religião A ou B era tão relevante quanto dizer que era sócio da Ginástica ou do Aliança, ou que votava no PDS ou no PMDB. Questões puramente pessoais, visões de mundo, nada especial. Ainda imaginava, entretanto, existir um criador, um ser superior. Imaginava, mas não sentia.

Com o tempo, e vendo as mazelas do mundo, e a diversidade das coisas e das criaturas no mundo, e como todas os efeitos têm suas causas, ainda que não consigamos explicar todas, comecei a duvidar que existisse esse criador supremo. Como também não o sentia, achei por bem me declarar de acordo com meu pensamento: eu era ateu. Passei a acreditar somente no que eu via, no que era comprovável. Bom, eu não vejo vírus e bactérias, mas sei que existem, porque pessoas mais estudadas e com os instrumentos adequados conseguem ver e mostrar que existem. Conseguem fazer testes. Repetir experimentos. Nada disso a religião conseguia fazer comigo, nada que não me exigisse "transcender" a razão.

Naquele momento me senti um iluminado. Imaginei ser imune a enganações. Senti como se eu e os ateus em geral tivéssemos uma visão mais clara, mais inteligente, do mundo. Passei a dividir a humanidade em duas classes: pessoas inteligentes, como eu e os demais ateus, e pessoas burras, subjugadas por baboseiras de alguma religião das várias que existem. Eu classificava todo mundo dessa maneira e admito que tinha internamente um certo deboche, preconceito, contra quem professasse alguma fé. Mesmo pessoas que eu amava e admirava eram jogadas na vala mental dos "burros". Confesso que comecei a ficar um tanto pedante e intolerante nessa época. Até que senti na pele o preconceito por ser ateu. Uma colega do trabalho certa vez me disse: "Puxa, mas deve ser tão triste não acreditar em nada!" Ao que respondi que acreditava nas pessoas, nas relações. Ela completou dizendo: "Nunca pensei que um ateu pudesse ser legal." Naquele momento me dei conta de que a classificação que eu fazia era preconceituosa, burra, inútil e injusta. Talvez haja algum gene que favoreça algumas pessoas a ter fé. Não sei. Mas isso não desmerece quem são. Não desmerece, nem abona. As pessoas são o que são, o que fazem. Se querem acreditar em gnomos ou qualquer outra coisa, que o façam. Eu não tenho nada a ver com isso.

Então esse sou eu. Como digo, o verbo "ser" do português é muito forte; ele dá um sentido de permanência, de eternidade, que nada no universo tem. É mais correto dizer "este estou eu". Eu estou ateu. Se, algum dia, alguém conseguir me provar a existência de um deus, então não vejo por que não aceitá-la. Até lá, estarei ateu. Como estou ateu, não quero convencer ninguém sobre isso. Não quero converter pessoas crente em ateias, nem dizer que não terão salvação ou que estão perdendo seu tempo de vida com bobagem. Como se eu não perdesse tempo da minha com outras bobagens. Juro, não quero converter ninguém. Quero seguir minha vida de pacato cidadão, pagando meus impostos, amando meus amigos e me divertindo com eles, fazendo-os felizes e tratando bem e com respeito quem está ao meu redor.

E espero, exijo, ser tratado com respeito também. Não quero pessoas apontando o dedo para mim e dizendo que peco, que blasfemo, que isso e que aquilo. Quem tem envergadura moral para dizer qualquer coisa sobre mim ou sobre qualquer outra pessoa? Não quero ser obrigado a frequentar lugares públicos que tenham símbolos religiosos. Não quero que as leis do meu país sejam orientadas por esta ou aquela religião, porque eu não tenho religião alguma. E muita gente também não tem. Não quero ver menções a religião no dinheiro que uso. Então fico realmente contrariado quando vejos grupos tentando se apoderar do congresso para enfiar goela abaixo (dos outros) as suas convicções religiosas. Será que gostariam de um deputado babalorixá na Comissão de Direitos Humanos? Ou da Bancada Xiita negociando favores com o governo federal? Só um estado laico respeita todos e tem lugar para todos - principalmente para os que tem e se importam com religião. Estados teocráticos perseguem e ofendem quem não reza a mesma cartilha. Respeitar o outro não é apenas deixar de agredi-lo física ou verbalmente. Respeitar é deixar que viva em paz, com seus valores, sem tentar impor os próprios valores e crenças.

Por favor, cristãos, vivam suas vidas e deixem-nos viver as nossas!

8 de dez. de 2010

Por que eu prefiro o Orkut

Prefiro o Orkut - e o "antigo" Orkut - porque ele é uma rede de contatos. Ele é prático e funcional para o que se destina: objetivamente, manter contato com amigos; reencontrar amigos; ver atualizações significativas de amigos, como novas fotos ou vídeos, ou alterações no perfil. Ele tem as ferramentas para agenda de eventos, tem vários níveis de privacidade e era isso.

Já o Facebook é, para mim, uma mistura de Twitter e Orkut e é direcionado para o pior dessa união. Não é uma rede de contatos, mas uma rede de fofocas. "Fulano pensou tal coisa e beltrano curtiu isso." A página principal é configurada e minada por essas futilidades, que são bonitinhas, que são engraçadinhas, ou podem ser irônicas, ou até polêmicas, mas que sempre chamam a atenção e que não agregam coisa alguma para ninguém. O Facebook é direcionado ao microcelebridadetismo - sendo essa uma palavra que acabei de cunhar mas que denota bem certo anseio de paparicação virtual, ou seja, necessidade de chamar a atenção.

Ele desvirtua a conversa ou a simples troca de opiniões e ideias entre amigos porque, por padrão, torna isso público - e é em cima dessa publicidade forçada que reside a sua razão de ser. As pessoas preferem o Facebook porque ele é mais interativo, mesmo que essa interatividade toda seja em cima de uma colossal listagem de futilidades. Não importa que sua interface seja poluída e confusa - ele é mais dinâmico que o Orkut.

Mas se eu não gosto do Facebook, por que tenho conta lá? Bom, porque muitos amigos estão abandonando o Orkut. "Ah, Orkut só se usa no Brasil. Nos EUA, todo mundo usa Facebook!". Como quero manter contato com algumas dessas pessoas, eis minha conta feicibuquiana. Mas não é sem protesto. Quero lembrar que o MSN virou moda e solapou o
ICQ, mesmo sendo muito inferior à época e, ainda hoje, não tendo todas as funcionalidades que o velho programa da florzinha tinha. Ainda tenho minha conta no ICQ, mas que contatos vou encontrar lá?

2 de nov. de 2010

Dona Guerda

Há certas coisas que vêm à minha mente de forma persistente. São pensamentos automáticos, involuntários, que povoam a minha cabeça quando não está focada em algum outro assunto. Não que eu pense neles o tempo todo, mas diariamente eles marcam presença. De forma geral, dizem respeito a pessoas; raras vezes a situações ou compromissos. Uma dessas pessoas é a minha mãe, dona Guerda, falecida faz 6 meses. Como hoje é dia de finados, resolvi escrever um pouco sobre ela, como forma de desabafo e, se possível, homenagem.
Devo confessar, em primeiro lugar, que não é fácil escrever sobre ela. Acredito que não tenho a visão imparcial e suficientemente esclarecida para poder fazer isso sem cair em erros de avaliação. Como filho, influenciado diretamente pelo convívio e criação, fica realmente difícil fazer uma descrição completa e justa. Dito isso, sigo adiante.
Uma das primeiras lembranças que tenho dela era da hora do meu banho. Primeiro numa banheirinha plástica cor-de-rosa, que seguido ia para o pátio, no gramado. Depois, numa maior e mais pesada, de metal, que ficava no banheiro mesmo. Lembro que, algumas vezes, não gostava quando ela enxaguava minha cabeça, ou por a água estar fria ou por escorrer xampu nos meus olhos. Lembro também que era ela que cortava meu cabelo, daquele jeito penico. Falando em cabelo, lembro que gostava de dormir mexendo nos cabelos dela, normalmente enrolando-os com meu indicador.
Quando ela me buscava da aula no 25, passávamos na loja de tecidos Sperb, que tinha um bebedouro de água bem gelada, que eu apreciava muito. Às vezes, nessa mesma volta para casa, ela me levava à padaria Brasil, para comer algum doce. Mas uma coisa de eu gostava muito mesmo era quando ela trazia, da banca do Araújo, um minipote de sorvete napolitano. Isso ela fazia quando voltava do trabalho e eu adorava muito. Acho que nesse período magoei-a pela primeira vez, pois devo ter deixado escapar, de alguma forma, que sentia um pouco de vergonha por ela ser mais velha que a média das outras mães e meus colegas acharem que se tratava da minha avó.
Acho que ela era uma mulher de criação bem germânica, no sentido que não sabia muito bem externar carinho e afeto aos filhos - fazia isso de uma forma subentendida, no dia-a-dia. Em compensação, nos rompantes de fúria e insatisfação, ela era bem agressiva, especialmente nas palavras ferinas. Acho que isso marcou muito a mim e aos meus irmãos, embora não fosse essa, certamente, sua intenção. No aspecto afetivo, ela deu carinho como aprendera a dar - com dedicação e abnegação.
A vida não foi muito generosa com ela. O casamento foi problemático, o dinheiro era sempre curto. Mesmo assim, ela não se entregava. Ajudava incansavelmente meu pai nas maluquices dele, consertando persianas, arrumando o carro - um Simca Rallye para lá de obsoleto, guardando quinquilharias. E cuidava, como podia e sabia, dos filhos. Quando ele morreu, achei que ela sucumbiria de tristeza. Mas seguiu forte, ainda que vez por outra se trancasse no banheiro para chorar. Não sei se chorava de saudade dele, ou de mágoa com a vida, ou das duas coisas.
Ela gostava de política, de história, de geografia. Sempre tinha uma opinião fundamentada sobre os assuntos atuais. Mostrava sua indignação com os governantes e seus desmandos e suas trapalhadas. Lembro que ela dizia, sem cerimônia, que fulano era 'lambe-cu do Fedorento", se referindo a algum repórter que elogiava o ex-presidente, que muito sabotou os parcos vencimentos que ela recebia da aposentadoria.
Ela gostava da língua francesa também, e quando soube que eu estava estudando, deve ter ficado bem feliz. Várias vezes nos telefonávamos e ela me perguntava em francês como eu estava. Mas ela, por outro lado, repudiava latim, e debochava com "qui, quae, quod, cuius, cuiis, cuius" quando eu falava nessa língua. Maldito método de aprendizado por tabuada que ela deve ter tido!
Acho que um erro que ela cometeu foi de se valorizar pouco. Era muito desleixada com suas próprias coisas, sua saúde, seu corpo. E não adiantava um filho tentar falar coisas desse tipo para ela; ela é que sabia, ela é que mandava. Aceitar a opinião contrária de um filho não era algo que fizesse com facilidade. Ao mesmo tempo, ela era generosa e desapegada - acho que abriu mão de muitas coisas em favor dos filhos, mas isso eu só percebi muito tardiamente. Por exemplo, acho que o dinheiro da venda do Simca foi, em boa parte, para a festa da minha 1ª comunhão. E quando ela se aventurou numa viagem de ônibus ao Paraguai comigo para eu comprar meu multímetro.
Muitas vezes me culpo por não ter sido mais atencioso, mais presente. Mas o ambiente familiar não ajudava muito e eu acabava fugindo, ou por pura covardia, ou para tentar me manter menos afetado pelas questões insolúveis. Com a morte dela, esse sentimento aparece com força, muitas vezes. Então tenho de me esforçar para lembrar que ela era, também, uma pessoa de difícil convívio, pouco flexível. A senilidade e o provável Alzheimer só acentuaram essas características, embora também tenham trazido uma afetuosidade pouco comum.
Somente no leito de morte eu disse que a amava, mas não sei se escutou. Queria ter alguma fé que me permitisse acreditar que ela ainda existe, em algum lugar, de alguma forma, e que está bem. E que ela soubesse o quanto eu a amo e o quanto ela faz falta. Sinto falta da sua voz suave ao telefone falando em francês; dos bolos que fazia nos finais de semana para minha visita, no período seguinte a minha mudança para Porto Alegre. Sinto saudade do seu colo, das suas opiniões, das suas histórias, que muitas vezes ouvi sem prestar a devida atenção.
Minha mãezinha, dona Guerda. Como ainda dói essa sua ausência. Eu não sei o que é a vida, eu não sei o que é a morte. Mas eu sei o que é amor de filho para uma mãe. E esse, a despeito da minha distância e ausência nesses últimos tempos, esse é grande, é o maior, é o máximo. Então é isso: de tudo sobre minha mãe, eu apenas acho, pois não tenho a capacidade de compreender tudo que se passou com ela. De tudo sobre minha mãe, eu sei que a amava.

31 de jan. de 2008

Obsoleto

O mundo mudou. Na verdade, está sempre mudando. "Tudo apenas se transforma" - disse Lavoisier. Mais que isso, tudo sempre se transforma. Mas ele estava enganado quanto a um ponto: nas transformações, coisas podem ser criadas, coisas podem ser perdidas. Claro que não em relação à matéria e à energia, que talvez seja o binômio que mais interesse à investigação científica. Mas naquelas outras coisas, talvez mais próximas da alma humana, as transformações podem ser tão profundas que o resultado não seja reconhecido; que o produto não mantenha relação com a matéria prima. Se mudam os rótulos, então há perda e criação, destruição e construção, crepúsculo e alvorada.
O mundo mudou. A órbita da Terra diminui; a Lua se afasta. A América segue para o oeste. O nível do mar sobe, mas o mar de Aral encolheu. As estações não são mais bem definidas e Porto Alegre nunca mais teve enchente - leite vigiado não derrama! As cidades cresceram, distritos se emanciparam. A Alemanha unificou-se, e o Iêmen também. A União Soviética não existe mais. A Birmânia e o Zaire mudaram seus nomes - mas será que mudou muita coisa? O Ínter também é campeão mundial. As pessoas que mal podiam comprar computador nas lojas, agora compram das lojas pelo computador.
O mundo mudou. Brizola morreu e, pasmem, Roberto Marinho também. Paulo Autran, Luciano Pavarotti, Saddam Hussein... Outras pessoas também morreram, mas muitas outras nasceram. Aliás, o nascimento e a morte de humanos devem ser os fenômenos mais registrados do mundo. Talvez só os de ratos nos ganhassem, se eles fizessem esse tipo de registro.
Nem tudo mudou. Ainda há lugares belos no planeta. Ainda há pessoas passando fome. Ainda há guerras. Ainda há pessoas mentirosas e corruptas que lutam para tirar o poder de outras pessoas mentirosas e corruptas. E Niemeyer continua vivo e fazendo projetos. Paixões brotam, amores morrem, e ódios se alimentam, como sempre.
O meu mundo mudou. Certezas que eu tinha viraram dúvidas. Outras, esqueci. Relações mudaram, porque as pessoas mudam. Elas mudam seus objetivos, seus valores, suas companhias. Nem sempre para melhor. Pessoas entram e saem das vidas umas das outras, mas às vezes não estive preparado para essas transições. Então, deslumbrado com a entrada triunfal e a morada majestosa, fui surpreendido com a saída repentina e o vazio frio que se espalhara pelos salões. A festa tinha acabado, a cerveja esquentou e as pessoas foram embora.
O mundo sempre muda e nada do que passou voltará a ser. Não como antes. Mas eu não me preparei para isso e fico agora contemplando diariamente os estilhaços que me sobraram. Sinto-me obsoleto, esquecido num canto, chorando as lembranças de um tempo ultrapassado.

18 de out. de 2007

Dúvidas

Até que ponto podemos nos entristecer com uma pequena decepção?
Até que ponto pequenas decepções seguidas podem afetar uma relação?
É mesmo possível não esperarmos nada de alguém próximo? É esse o ideal?
Laisse faire, e é lucro o que vier!
Quando não hesitamos em fazer algo que pode aborrecer a outra parte, é por que confiamos na solidez da relação, ou por que já não nos importamos com o (impacto no) outro?

Onde fica, afinal, o botão do "foda-se"?

22 de mai. de 2007

Da Inveja

Durante a infância tive muitos amigos que, de alguma forma, mantinham estreitas ligações com seus irmãos. Acredito que a pouca diferença de idade entre eles favorecia esse entendimento, embora também pudesse criar clima de disputa, principalmente mais tarde, na adolescência. Dentre os amigos que agregavam seus irmãos ao meu círculo de amizade, posso citar o Marcelo e a Fernanda; depois o Roberto com o Carlos; depois o André com o Rafael; eles conseguiam interagir de uma maneira que eu não podia, ou não conseguia, com os meus. Mais do que isso, partilhavam de interesses comuns e se defendiam de inimigos externos, muitas vezes representados pelo controle dos pais.
Eu não tinha essa vivência em casa. Meu irmão e minha irmã, ambos um tanto mais velhos do que eu, viviam preocupados com seus próprios problemas ou criando alguns para mim. O ambiente era permanentemente conflituoso. Lembro-me de fazer conchavos com um ou outro conforme o decorrer das brigas e disputas (anos depois, fui perceber uma analogia dessa situação com as "eternas" guerras e alianças entre Eurásia, Lestásia e Oceania, do livro 1984). Além disso, havia um clima de delação: o deslize de algum era imediatamente reportado à autoridade vigente ou usado como argumento em alguma chantagem.
Essa situação me incomodava, e era mais um fator que me fazia procurar abrigo afetivo fora de casa. Amigos foram tornando-se cada vez mais importantes e, ao mesmo tempo, como causa e efeito, meu diálogo familiar diminuía. Devo admitir, entretanto, que muitas vezes busquei conforto emocional na minha irmã, que prontamente me socorreu. Com o tempo, acabei criando com ela o mais forte vínculo dentre meus familiares.
Dessa maneira, fui buscando nos amigos os laços fraternos mais fortes, o que muitas vezes me deixava numa posição de dependência ou de deslocamento. Por melhor que um amigo seja, ele não tem o compromisso de um irmão e, na maioria da vezes, não quer ter. Uma boa comparação seria dizer que irmãos são como cães: podem latir, morder, mas sempre estão à volta; já amigos são como gatos: são mais graciosos, divertidos, mas também mais ariscos, e não se pode contar muito com eles.
E ultimamente tenho reparado nisso, nesse binônio "amigo-irmão", mistura de compromisso formal sangüíneo e dedicação espontânea e desinteressada. No exemplo dos irmãos que tocam violão e cantam de noite no quarto; ou daqueles que camuflam uma garrafa de uísque como presente para poder beber até cair num bar (e agora o caçula lamenta a falta do outro, que se mudou para longe); ou da cumplicidade daqueles que, como numa traquinagem, batem e consertam o carro, escondidos, para os pais não ficarem sabendo. Tudo isso me faz sentir uma inveja parda, uma admiração nostálgica de algo bom e profundo que não tive.

20 de dez. de 2006

Das Lacunas

Pois faz tempo que quero escrever algo, mas não me vem a inspiração. Assuntos bons surgem, idéias interessantes também, mas não consigo estruturar um texto. É como se as palavras houvessem fugido para o mato e, escondidas atrás das árvores, ficam à espreita, caçoando da minha procura infrutífera.
Não apenas me faltam palavras. Não sei exatamente o que gostaria de dizer, que tipo de emoção passar. É um infinito condensado de dúvidas e indecisão. Precisamente isso! Então, penso e não chego a texto algum. Ah, bons tempos aqueles em que conseguia escrever poemas piegas!! Hoje não passo do pensamento vacilante, do ensaio hesitante, da tentativa cambaleante e... de concreto, nada. Minto! De concreto, apenas as paredes desnudas do novo habitáculo que irá me abrigar, e a marquise que caiu quase em cima de mim.
Parece que minha capacidade de produção textual foi-se com a matrícula trancada da universidade. Mas pode ser também outro o motivo da inspiração fugidia: o vazio de emoções que se encontra em mim. Mesmo sem ter culpa, fui jogado nesse limbo confuso de sentimentos, uma profusão de afetos inúteis e raivas inócuas que, de tão fortes e intensos, formam uma absoluta e medíocre pasmaceira. Estou livre e perdido ao mesmo tempo; sem dor nem vontade.

30 de out. de 2006

Tantos planos

Nada do que foi será,
de novo, do jeito que já foi um dia.
Tudo passa,
tudo sempre passará.
Eu tinha tantos planos na minha mente... Planos de como provocar teu sorriso, de te fazer feliz. Sonhava acordado pela manhã, depois do sonho adormecido, pensando no teu rosto, lembrando da tua voz. Era um sonho bom, que vinha naturalmente e eu apenas lhe dava espaço e tempo. Talvez fosse uma boa maneira de despertar.
Mas logo vinha a condenação. Aquele "NÃO" gigantesco, vermelho e estrondoso que pisoteava minha cabeça. "NÃO é possível". "NÃO acontecerá". "NÃO tenho chance". E então, o sonho se tornava castigo; a alegria, fraqueza; e os planos, tempo perdido de vida. Assim tem sido há muito tempo, e agora é um pouco menos do que já fora.
Já não te escondo mais nada; contei-te o que já sabias. Pelas pistas que deixei - algumas intencionais, outras não - e pelas tuas próprias observações, tua desconfiança já era uma certeza. Não preciso mais fingir que não sinto; não precisas mais esconder que sabes. A última lacuna na nossa amizade foi preenchida com transparência sincera e cristalina.
Agora a responsabilidade volta para mim. E é muito grande. A culpa não é tua, talvez minha, mas ainda choro pelo passado que não tivemos, e pelo futuro que não teremos. Choro pelos planos feitos e perdidos, pela energia jogada fora, pela chance que não existiu. Por aquilo que não veio e pelo resto que já passou. Parece que já é tarde, até para chorar.

22 de jul. de 2006

Cansaço

Quando meu corpo está cansado, procuro repouso para recuperar as forças. Normalmente uma boa noite de sono é suficientemente revigorante. Mas tenho sentido um outro tipo de cansaço, um que as noites de sono não resolvem. Talvez eu esteja com a alma cansada, e o sono torna-se uma fuga. Mas é uma fuga em vão, porque a cada manhã está tudo ali, de novo, para me cansar novamente.
Assim, me cansa uma família desestruturada, de pessoas teimosas, possessivas, chantagistas e que convivem numa situação instável e insustentável já há muitos anos. Elas formam uma espantosa e intricada rede de intrigas e interesses, sediada em um terreno que já chego a amaldiçoar, embora tenha crescido entre suas árvores. Para sustentar tal desiquilíbrio usam das forças dos familiares que, por compaixão ou por medo de sentirem remorso, ainda mantêm vínculos. De minha parte, cada vez menos afetivos.
Também me cansa ter um amor que, por impossível, tornou-se doentio e patético. Tentei dele me desvecilhar mas não obtive êxito. Queima ainda dentro de mim como uma úlcera debochada, e me consome com tristeza momentos que deveriam ser apenas de alegria. E também por ele joguei-me novamente à solidão, a desimportância, ao esquecimento. Esqueci-me de mim mesmo, e vejo meu corpo se alastrar a cada dia do meu fatigante sedentarismo; e isso também me cansa.
Estou cansado da inércia que deixei me possuir, da estagnação infrutífera que se tornou minha vida. Cansado de ver o tempo passar mas as coisas não mudarem. Cansado de correr em círculos, ainda que às vezes pareçam elipses. Estou cansado da minha ironia, das minhas palavras virulentas que ferem quem amo. Cansado dos meus queixumes, das minhas ladainhas, que tampouco para a riqueza literária se prestam. Estou cansado de mim.

21 de jul. de 2006

Silogismo

Premissas:
  1. A vontade de se presentear uma pessoa é diretamente proporcional ao amor que se tem por ela.
  2. A grandeza do abraço recebido é inversamente proporcional ao quadrado do valor do presente dado.
Corolário:
  • Quanto mais se gosta de um amigo, mais sem graça é o abraço recebido!

29 de jun. de 2006

Página em construção

Acho muito engraçado quando entramos em alguma página da Internet em busca de alguma informação e encontramos apenas um “Página em Construção”. Ela está lá, tem nome, ocupa espaço, mas ao mesmo tempo é vazia, não tem informação. Significa apenas que não é, mas que pretende ser. Às vezes, encontrar uma página dessas pode ser frustrante: ela pode ter sido bem indicada, ter tido uma boa referência, mas por algum motivo está lá, parada, estática. Sem graça. E em algumas, a locução “em construção” é meramente um signo de esquecimento ou de abandono; não serão concluídas nunca; muitas nem sequer foram começadas...

Bom, falar de páginas da Internet é fácil, ainda mais quando se é um informata, meu caso; difícil é falar de mim mesmo. Porque, afinal, que credenciais eu tenho para falar sobre quem sou eu? Como se eu pudesse ter o dom da imparcialidade ao me descrever! Muito mais apropriado é descrever meus hábitos, citar do que gosto, discorrer sobre o que penso. Ou talvez já esteja, sem perceber, descrevendo uma característica minha.

O que sei, sobre mim, é que tenho aprendido muito. Não por estar numa nova faculdade, mas por estar vivendo de uma maneira mais lúcida. Isso não me impede de, vez por outra, cometer erros, imprudências e radicalismos, mas, na média, evita tais situações ou atenua seus efeitos. Mas que lucidez é essa?

Tive uma infância um tanto solitária, sendo filho caçula e temporão de uma família estabelecida mas, ao mesmo tempo, ausente. Por alguns motivos, fui uma criança muito insegura; achava-me – e realmente era – mais imaturo que meus colegas. Posso dizer que sentia mesmo vergonha da minha simples existência. Desejava muito fugir, desaparecer, começar tudo de novo. Foram anos bem complicados, aqueles.

Com a passagem para o segundo grau, mudei de escola. O ambiente novo era mais cosmopolita, pois possuía colegas de vários lugares e classes sociais distintas; os professores eram competentes e, na mesma medida, exigentes. De alguma forma vi uma possibilidade de construir uma nova imagem minha externa, mais forte. E isso foi fácil. Ganhei respeito, tornei-me uma liderança. Entretanto, alguma coisa, possivelmente interna, continuava errada. Seguidas vezes senti-me vazio, triste, só. Pior do que isso, dispensável. Como se eu tivesse uma carência infinita que jamais poderia ser sanada.

Quando vim finalmente morar em Porto Alegre, para fazer meu primeiro curso de graduação, dei um passo importante ao meu amadurecimento e à minha liberdade, mas trouxe comigo, ainda, essas questões não resolvidas. Tentei, então, encenar auto-suficiência. Isso foi desastroso, porque a confundi com desprezo e mesquinharia e acabei machucando e afastando pessoas de quem gostava muito.

Consegui ter uma reação quase imediata, como um raio que cai e ilumina a densa mata molhada pelo temporal. Percebi que as coisas e as pessoas, na grande maioria das vezes, eram mais simples e sinceras do que eu as imaginava. Percebi que minha desconfiança mostrava mais dos meus medos e da minha insegurança do que qualquer outra coisa. Infelizmente, esse momento iluminado aconteceu tarde demais para que fechasse todas as feridas abertas. Mas descobri a necessidade de ser transparente, de eliminar fingimentos, de parar de jogar. Com os outros, e principalmente, comigo.

Essa transparência me permitiu começar a entender minhas fraquezas, corrigir meus defeitos. Agora, aos trinta e dois anos, sinto-me mais aprendiz do que antes. Tenho aprendido a levar a vida de uma maneira positiva, tenho aprendido a não criar fantasmas na minha mente, aprendido a mudar. Mas é um longo trabalho, contínuo, cujo final eu não sei qual será, como será. Quando me vejo no espelho, posso me alegrar com as qualidades ou me entristecer com os defeitos. Mas nesse caso, não me desespero, porque vejo ali, no meio entre o coração e o cérebro, pendurada no pescoço, uma plaquinha dizendo “em construção”.

21 de jun. de 2006

Confissão

Quando eu era criança, fui uma vez a um restaurante muito chique com meus tios. Pedimos um filé à parmegiana. Fiquei impressionado com tanta carne, mas decepcionado com o recheio: dentro havia algo amarelo e derretido, que pensei obviamente tratar-se da gordura da carne. Achei nojento servirem uma carne assim, ainda mais com a gordura camuflada como recheio.
Tratei de raspar aquela porcaria fora, e pude me deleitar com aquele suculento e bem temperado pedaço de carne. O restaurante podia ser chique, mas a mim não enganariam! Deixei aquela coisa sebosa no prato, como testemunho da minha indignação.

28 de mai. de 2006

Mal-entendido

Uma das piores coisas que pode acontecer na realização dos processos de comunicação é o mal-entendido. Ele ocorre quando um dos interlocutores interpreta erroneamente o que o outro quis dizer, e por vezes, ocorre recíproca e simultaneamente.
Auxiliado pela Lei de Murphy, o mal-entendido normalmente acontece quando não deve acontecer, causando grandes embaraços e prejuízos. Dificilmente acontece um mal-entendido sobre uma bobagem. Mas sobre coisas importantes, daí sim, tudo parece conspirar para que algo saia errado, para que alguém não se faça entender.
O que mais assusta no mal-entendido é que ele pode quebrar paradigmas, invalidar regras, abalar certezas. Ele é subversivo e cruel. Semeia a discórdia entre nós. Devemos eliminá-lo por completo das nossas vidas. Abaixo o mal-entendido!

26 de mai. de 2006

Troca de equipamentos

Faz tempo que não vejo uma emissora de televisão anunciar "Interrompemos brevemente nossas transmissões para troca de equipamentos". Pois eu queria ter essa capacidade, de sair do ar para fazer minha própria manutenção. Não que eu quisesse que as pessoas deixassem de me assistir, nem que trocassem de canal. Apenas um tempo para eu fazer os ajustes necessários. Talvez até mudar a programação, quem sabe. Mas eu não tenho essa habilidade, então fico a exibir as mesmas imagens embaçadas, programas desgastados, sem o brilho que a audiência merece e sem a nitidez que gostaria de passar. Além disso, acho que nem sei fazer a manutenção. Mas enfim, agradecemos pela audiência.

24 de mai. de 2006

Vazio

É estranha a sensação que substitui um amor sufocado e morto. É algo como visitar uma casa antiga, onde moramos durante muito tempo e fomos felizes; mas a casa, abandonada e envelhecida, mostra quase nada do que um dia já foi. A nostalgia, as lembranças e a comoção ficam mesmo por conta do visitante.
Mais intrigante ainda é quando o amor em tela foi natimorto. Nasceu forte, indomável, capaz de qualquer coisa. Menos de ser realizado, de existir de fato. Nasceu destinado a morrer, e assim, existiu de fato em apenas uma mente, machucou apenas um coração, apertou apenas um peito. De fato, como nunca fora concretizado, nem sequer nasceu. Foi apenas uma paixão, uma sucessão de pensamentos dirigidos, a energia canalizada, o choro derramado.
Agora fica essa sensação incômoda, de algo que fez bem, mas que não existiu; que teria sido bom, mas que era impossível. É um vazio triste, porque ninguém mais mora na antiga casa que existe somente na minha lembrança.

23 de mai. de 2006

O Absorvente

Já faz algum tempo que percebi que possuo características que não são minhas. Quero dizer, são minhas por apropriação, mas não por originalidade. Parece confuso? O fato é que assimilo algumas características de amigos meus. Às vezes são cacoetes, às vezes expressões, maneiras...
Foi no ambiente do segundo grau que percebi isso. O jeito de brincar (e de provocar) do Fernando, e acho que até o jeito de rir dele tomaram conta de mim. Isso fez o professor Breno, num acesso de fúria contra a turma, me chamar de deslumbrado, enquanto crucificava o Fernando para os demais. Claro, devo lembrar que o ambiente da turma também era um solo fértil para cacoetes, manias e todo tipo de proliferação: o nosso professor de SOE acusou-nos de usar linguagem do século XIV; não por menos criamos um jornal chamado “A Centúria”, cuja primeira edição foi publicada em latim vulgar macarrônico ressuscitado.
Dessa época também lembro que, algumas vezes, me via pensando como se fosse o André, como se realmente isso fosse possível. Acho que inconscientemente tentava imitá-lo. Mérito todo dele, pessoa incrível que é. Por sinal, que saudade, cara!
Depois foi da alegria e da espontaneidade do Seiji que peguei muita coisa. O jeito de expressar “estou pensando” com os olhos e a testa, acho que um pouco do modo de falar também - embora definitivamente eu não tenha ficado com sotaque japonês - , foram contribuições deste pequeno grande amigo.
Na seqüência, outra grande influência foi o Flávio. Ele com seu vocabulário pitoresco, empolado, típico da aristocracia capilense, foi fonte de muitas transformações no meu jeito de ser. Acho que daí nasceu a minha face erudita; se eu já tinha algum estudo, foi com ele que ganhei pompa e circunstância. E também a mania de consumir cerveja em grandes quantidades.
Durante o período de faculdade, minha grande influência, e aqui até mesmo conscientemente, foi o Weber. Eu acho que passei a falar como ele, me mexer como ele, usar o recurso das frases-ninjas dele. Acho que quando dava aula, criava piadas como as que ele faria no meu lugar. Quando argumentava com alguém, usava o tom professoral típico do Weber. Claro, eu era um aprendiz de Weber, mas com todas as heranças vindas anteriormente. Mas não posso me esquecer aqui de mencionar o Henrique! Meu querido amigo, meu irmão! Hoje quando faço “txipix”, menos que já fiz outrora, não o faço sem lembrar este amigo que tanta coisa me ensinou. Nesse tempo, as forças resultantes que atuavam em mim eram muito semelhantes àquelas que atuavam no Tales, de tal forma que muitas pessoas diziam que falávamos exatamente da mesma maneira. Hum, agora pensando, acho que ele que me imitava!
Durante algum tempo pensei que essa minha tendência fosse falta de personalidade. Afinal de contas, que motivo me leva a imitar algumas coisas de outras pessoas, ainda que o faça sem intenção consciente? Só porque são pessoas próximas? É alguma tentativa de ser aceito? Já tentei inclusive me policiar mas, de um jeito ou de outro, acabo incorrendo em algum deslize.
Achei que minha última influência seria o Matheus. Já me vi dando muita risada parecida com a dele, e muito da ironia e das alfinetadas que uso atualmente peguei dele. É uma enorme e feliz influência, proporcional ao tamanho da nossa amizade. Mas não foi a última. Peguei do Daniel a mania de fazer cenas com dramaticidade, da Carla a tendência de maliciar tudo que é dito. E se não bastasse, agora toda a ênfase argumentativa, indicador acusativo, rajada coativa e outras características do Bruno e, acho também, do Adriano. Mas também, é impossível não cair na tentação de imitar tão adoráveis pessoas.
Hoje convivo bem com esses pequenos furtos que cometo, essas pequenas piratarias de modos. Acho que pego boas coisas de cada pessoa, e no geral, se isso não me torna uma pessoa melhor, certamente me deixa mais agradável. É como se eu prestasse uma homenagem viva a estas pessoas. E elas merecem!

16 de mai. de 2006

In principio erat verbum...

Pois bem. Cá estamos porque aqui chegamos. Eis que inauguro o meu blogue, protegido pelo anonimato, guardado pelo sigilo e oculto pela cardinalidade. Sei que isso me será cobrado depois, pelo menos por uma pessoa. Mas por enquanto, quero que permaneça assim mesmo.
Esse blogue tem inicialmente três propósitos:
a) expor minhas idéias sobre assuntos que me importam;
b) expor meus textos, embora que para o bem escrever, eu saiba fazê-lo pior do que todos;
c) expor fatos relevantes do meu cotidiano, desde que passem por critérios rigorosos de seleção!
Acho que o ponto fulcral mesmo é treinar a escrita, posto que agora sou um aluno da Letras e, de fato, faz tempo que não exercito a habilidade de escrever.
Bom, eu ainda não editei o meu perfil, portanto meus dados pessoais serão fornecidos em doses homeopáticas. Além do mais, acho que não interessam a ninguém mesmo, assim como o próprio blogue em si. Mas se estiveres lendo isso agora, sê bem-vindo de qualquer forma. Bom proveito!