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12 de nov. de 2010

Pedofilia

Singrando em diagonal entre casas brancas
O bispo excitado chegou ao alvo do seu desejo
E comeu o pequeno peão que se lhe insinuava.
Extasiado, olhou para o rei inimigo e balbuciou:
- Xeque-mate!

28 de mar. de 2008

Ode a Porto Alegre (Deus lhe pague)

Por essas fachadas pichadas
que fico a assistir
Pelo assalto no parque
que devo previnir
Pelos cocôs nas calçadas
que vivem a surgir
- Deus te pegue

Por aqueles no palanque
que só fazem engrupir
Pelos outros no paço
Soídos a mentir
Pelas coisas não feitas
esperando o porvir
- Deus te leve

Pelos buracos na rua
que nos fazem cair
Pelos teatros sem graça
que vivem a repetir
Pelos bueiros imundos
que já vão entupir
- Deus te guarde

Pelo flanelinha sem dente
que nos vai extorquir
Pela vontade latente
de abandonar e fugir
Pelo desânimo pungente
de lutar e sorrir
- Deus nos poupe

29 de out. de 2007

Sina

Quem nasce lagartixa nunca vira jacaré.
Mas, vez por outra, perde o rabo!

9 de out. de 2007

Dois lados

A beleza
De não se mandar no coração
É que os sentimentos
Não podem ser comprados.
A tristeza
De não se mandar no coração
É que os sentimentos
Não podem ser cobrados.

A vida é um cafife sentimental!

4 de abr. de 2007

Bruno, o Questionável

E agora, Bruno?
Sem bolachinhas para comer no corredor,
Sem capuccino para beber,
Quer ir para Tóquio,
Mas Tóquio não existe mais.
Fugir do Jacu já não pode,
Os chamados fugiram também.
Sem perdigotos que voem além,
Sem a cerveja quente daquele bar,
Não há mais mesa onde o dedo possa bater,
Nem mais apostas há para se fazer.

E agora, Bruno?
E agora, você?
Você que zomba dos outros,
Que faz chacotinhas,
Que bebe, e chora?
É o verme rastejante
Da arraia-miúda.
Onde escondeu o glamour?
Onde perdeu o requinte?
A Biba fugiu,
O Zanza fugiu,
O Dé fugiu,
O Becker também fugir irá.
O Adriano estudou,
O Lucas passou,
O Moisés ligou,
O Dêilor mijou,
E a multa não veio.
E agora, Bruno?

Irá para o abraço
Dos seus amigos,
Vá buscar o conforto
Nos seus livros.
A sinuca o espera,
O concurso o espera,
O Vinícius o espera.
Esperar é o que já não pode.
Ainda que a inércia lhe doa,
Saiba que lá no fundo
há de ser boa pessoa!

21 de dez. de 2006

Jogo de Interesses

Quando alguém é carente,
é muito fácil ser amável, gentil e solícito.
Há reais mérito e sinceridade
quando se deseja em escambo
o afeto de outrem?
A lealdade não é virtude,
é apenas requisito de sobrevivência.
Tudo são negociatas
e os sentimentos são a moeda corrente.

22 de ago. de 2006

Cortina de Fumaça

Essa fumaça que me engasga
e defuma teus pulmões
ressecou teu coração.
Também embaçou teu olhar,
e tornou teu sorriso amarelo.
Essa fumaça em pequenas doses,
repetidas freneticamente,
agora te esconde feito escudo.
Esconde mas não protege.
Proteger de quê?
Teu sorriso limpo,
teu olhar inocente,
tua palavra incauta
Aonde foram parar?
Teus sonhos engendrados,
teus castelos nefelibatas e
teus projetos sonhados
onde foste ocultar?
A máscara arrebatou o ator,
o escudo conquistou o guerreiro,
a fórmula tomou o engenheiro,
mas a lágrima não lavou a dor.
A dor incômoda de ser humano,
de ser frágil e incoerente,
de ser amado e ter medo de errar.
Agora queres fugir. Fugir de quem?
Assopra essa poeira,
limpa essa fuligem,
lava o rosto e levanta os olhos.
Sai detrás dessa cortina que te encobre
e volve ao teu lar amical.
Nós que aqui estamos
por ti esperamos!

14 de jun. de 2006

Verbos

Não é que eu não goste do buscar,
do encontrar,
do achar,
do pegar,
ou do largar;
eu só não conheço o Catar!

30 de mai. de 2006

Despedida

Essa chuva insistente que cai lá fora
Quer afogar minha esperança
ou lavar a tristeza embora?
Pois os dias já me são frios e curtos
mas longos em solidão.
As tardes não têm mais graça,
o café não tem mais sabor,
as vozes são todas iguais.
Meu amigo foi-se embora;
mais um que leva consigo
a lágrima de quem fica e chora.

22 de mai. de 2006

Bestiário

Bestas ferozes
de índole voraz
de atos atrozes
tantas feras mutiladas
Não são os leões do Coliseu
São as palavras faladas.