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8 de dez. de 2010

Por que eu prefiro o Orkut

Prefiro o Orkut - e o "antigo" Orkut - porque ele é uma rede de contatos. Ele é prático e funcional para o que se destina: objetivamente, manter contato com amigos; reencontrar amigos; ver atualizações significativas de amigos, como novas fotos ou vídeos, ou alterações no perfil. Ele tem as ferramentas para agenda de eventos, tem vários níveis de privacidade e era isso.

Já o Facebook é, para mim, uma mistura de Twitter e Orkut e é direcionado para o pior dessa união. Não é uma rede de contatos, mas uma rede de fofocas. "Fulano pensou tal coisa e beltrano curtiu isso." A página principal é configurada e minada por essas futilidades, que são bonitinhas, que são engraçadinhas, ou podem ser irônicas, ou até polêmicas, mas que sempre chamam a atenção e que não agregam coisa alguma para ninguém. O Facebook é direcionado ao microcelebridadetismo - sendo essa uma palavra que acabei de cunhar mas que denota bem certo anseio de paparicação virtual, ou seja, necessidade de chamar a atenção.

Ele desvirtua a conversa ou a simples troca de opiniões e ideias entre amigos porque, por padrão, torna isso público - e é em cima dessa publicidade forçada que reside a sua razão de ser. As pessoas preferem o Facebook porque ele é mais interativo, mesmo que essa interatividade toda seja em cima de uma colossal listagem de futilidades. Não importa que sua interface seja poluída e confusa - ele é mais dinâmico que o Orkut.

Mas se eu não gosto do Facebook, por que tenho conta lá? Bom, porque muitos amigos estão abandonando o Orkut. "Ah, Orkut só se usa no Brasil. Nos EUA, todo mundo usa Facebook!". Como quero manter contato com algumas dessas pessoas, eis minha conta feicibuquiana. Mas não é sem protesto. Quero lembrar que o MSN virou moda e solapou o
ICQ, mesmo sendo muito inferior à época e, ainda hoje, não tendo todas as funcionalidades que o velho programa da florzinha tinha. Ainda tenho minha conta no ICQ, mas que contatos vou encontrar lá?

31 de out. de 2010

Presiden...ta?

Pois a Dona Dilma venceu a eleição. Desejo, do fundo do meu coração, boa sorte para nossa futura presidente. Sim, presidente, que toma leite quente que dói nos dentes da gente. Ela, mulher, mãe, avó, será a primeira presidente - assim mesmo, com "e" no final - do Brasil. Porque a palavra "presidenta" pode até aparecer num ou noutro dicionário, mas é um aborto, coisa que a Dilma e o Serra prometeram combater. No caso, um aborto linguístico, uma excrescência.
Mas por que toda essa minha fúria contra uma palavrinha tão inofensiva? Porque ela fere, de forma ampla e irrestrita, a lógica, a tradição e a beleza da língua. Explico: o sufixo "-nte" que existe em português, como em presidente, pedinte, palestrante, gerente, vem de uma desinência verbal do latim. Ou seja, essas palavras são originadas, a princípio, de um verbo - em latim, essas formas verbais eram chamadas de particípio presente. Essa forma verbal tem um significado explicitamente ativo, ou seja, aquele que pratica a ação; por exemplo, presidente é "(aquele) que preside".
Acontece que, tanto em latim quanto em português, palavras com essa função e com essa forma são palavras que designam e abarcam completamente os dois sexos - masculino e feminino (em latim, na verdade, serve também para o neutro). Porque são, antes de tudo, formas verbais incorporadas em substantivos. Não por acaso, um susbtantivo desse tipo é chamado "comum de dois (gêneros)". Então, essa moda de efeminar o sufixo, metendo um "a" no final para designar pessoas do sexo feminino que executam a ação, é desnecessária, equivocada, sexista e incoerente. Pois se moda pega, a gerente de um banco será a "gerenta", e uma palestrante será uma "palestranta". Uma mulher grávida seria, então, uma "gestanta". Ridículo, não?
A mesma coisa poderia se pensar com o sufixo "-sta". A jornalista versus o "jornalisto", a dentista versus o "dentisto". É a esse esgoto que esses fanfarrões querem levar nossa língua? No juridiquês, forma pernóstica - e por vezes perniciosa - da língua, os doutos doutores, muitos sem doutoramento, inventaram que palavras com final em "-l" são masculinas, e derivaram daí as oficialas e as bacharelas. Ainda bem que o pincel não é título judiciário; passou incólume!

25 de out. de 2010

O nome das coisas

Várias vezes já fui questionado por que não se fala mais latim. Existem várias explicações boas sobre isso, mas o cerne da questão - e da resposta - reside muito mais na arbitrariedade da nomenclatura do que em história ou linguística.

Ninguém duvida de que os japoneses falam japonês, de que os árabes falam árabe, de que os gregos falam grego e de que os indianos falam hindu. E ainda de que os iranianos falam persa, embora o gentílico não ligue o povo à língua. Bom, todas essas línguas são tão ou mais antigas que o latim, nossa língua-avó, morta e enterrada - que descanse em paz! O que explica, então, a permanência dessas línguas e o desaparecimento do latim?

O latim era a língua do Império Romano e foi espalhado pelas províncias conquistadas. Com a queda de Roma, essas províncias passaram a países e as forças que unificavam a língua com o padrão da antiga capital do império deixaram de existir. É fácil perceber que, numa época de grande analfabetismo, de sociedades rurais e sem telecomunicações, cada país, cada povo, iria moldar o latim que falava de acordo com seu próprio contexto - cultura própria e a adquirida através do intercâmbio com outros povos. Assim, cada país fez o latim evoluir de uma maneira diferente. Quando o conceito de estado nacional se firmou, a língua tornou-se um fator de identidade nacional muito importante. Então, o nome da língua precisava, também, de acompanhar a nação e o nome "latim" passou a pertencer a um passado inglório de povo subjugado que não mais interessava. Dessa forma, no Reino de Portugal surgiu o português; em Castela, o castelhano, e assim por diante.

Isso é bem diferente do que aconteceu com as outras línguas anteriormente citadas. Cada uma dessas línguas era - e ainda é - língua nacional de um povo. Embora o persa falado hoje tenha pouca relação com a língua que Xerxes falava, ou grego de hoje seria ininteligível para Sócrates caso vivesse, essas línguas mantiveram seus nomes porque estão associadas a nações que mantiveram seus estados. Em todos os casos, adjetivos temporais dão a ideia do hiato existente: "grego clássico" versus "grego moderno"; "persa antigo" versus "persa moderno", etc. Mesmo no caso do árabe, que foi espalhado a um grande número de países, o processo de fragmentação e diversificação não ocorreu. O árabe, língua literária madura, acabou sendo adotado como língua nacional em cada estado convertido ao islã. E o fator religioso é um forte motivador da unidade linguística - desconsiderados os inúmeros dialetos existentes.

Então, sob certa perspectiva, é plausível considerar que ainda falamos latim. Um latim modificado, que atravessou vários séculos e revoluções de vários tipos. Mas lembremos que o latim que falamos é tão diferente do falado por Cícero quanto o grego moderno difere daquele que Platão proferia. E se tudo é grego, então tudo é latim! Aliás, ao estudar latim, ficamos impressionados com a quantidade de palavras que chegaram intactas ao nosso vocabulário, ou as que sofreram pouca mutação. Por outro lado, o latim que falamos é diferente do latim falado pelos hermanos, e do falado pelos fratellos.

Uma comparação que gosto de fazer é com o nome das cores: o azul, pouco comum na vida natural, é muito mais conservativo ao nome de suas variantes: azul claro e azul escuro são as básicas, além de azul celeste, azul marinho, etc. Já o vermelho pouco permanece com seu nome: um pouco mais claro fica "rosa"; um pouco mais escuro fica "vinho", "marrom". No fim, tudo é uma questão de darmos nomes às coisas.

13 de out. de 2010

Porto Alegre é demais!

A capital de todos os gaúchos é, sem dúvida, a cidade mais urbana do estado. Digo urbana em termos de afluxo de civilização, aglomerado de coisas, turbilhão de acontecimentos e todo o resto. Claro que contribui para isso ser também, disparadamente, a maior cidade nestes pagos. Infelizmente, a cidade não está a salvo de barbárie dos habitantes e provincianismo dos administradores, fazendo com que topemos com tristes marcos em todos os cantos dela.

A barbárie é, por exemplo, todo o grande volume de lixo que diariamente seus habitantes jogam nas vias públicas; assim é com as fezes de cachorros que são abandonadas pelas calçadas da cidade. E o vandalismo impune que picha e destrói casas e monumentos. Não sobra nada inteiro em Porto Alegre. Aqui, nada dura bonito por muito tempo. Li uma notícia sobre a exposição Cow Parade: esculturas bovinas foram pichadas, roubadas, queimadas. Tinha de ser em Porto Alegre!

O provincianismo é, por exemplo, a administração municipal construir um grande prédio, em pleno centro da capital, para abrigar os comerciantes ambulantes que infestavam as ruas e impediam os transeuntes de transitarem. Prédio grande, em pleno centro... talvez em outras cidades fosse construído algo bonito, algo que valorizasse a região, que chamasse a atenção pela beleza ou inovação, mas não em Porto Alegre. Não! Nunca! Em Porto Alegre essa construção deve ser tosca, deve parecer uma grande caixa reta e cinza de concreto. Bingo! Eis que temos o Camelódromo. Assim é também a duplicação de uma avenida adjacente a um parque; ela não pode simplesmente tomar área do parque, mas deve rasgar o parque ao meio, quebrar sua continuidade. E lá se foi o Parque Marinha do Brasil. Talvez à parte agora separada dêem o nome de algum notável, como se fosse um novo parque... Porto Alegre me dói!


24 de abr. de 2008

A Inter Coetera de Lula

O papa Alexandre VI nasceu em Valência. Embora naquela época ainda não existisse um país chamado Espanha, mas sim a união dos reinos de Castela e Leão e Aragão, o espírito nacionalista espanhol devia estar presente quando o papa deliberou, na famosa bula Inter Coetera, que todas as terras novas descobertas ou a descobrir a 100 léguas ao ocidente de Cabo Verde pertenceriam aos seus monarcas, "ilustres filhos caríssimos em Cristo".
A bula é um exemplo clássico da arbitrariedade com que pessoas determinam coisas. Doando terras "não cristãs" descobertas ou a descobrir para um determinado país, o papa ignorou a existência dos direitos de outros povos, ignorou fatos geográficos e a ambição dos outros países europeus envolvidos nas grandes navegações. Cedeu simplesmente aos interesses econômicos mercantilistas de Portugal e Espanha, que depois acertaram o limite exato da cerca nos tratados de Tordesilhas e de Saragossa. Mas arbitrários como a bula antecessora, foram solenemente ignorados pelos outros países, mormente França, Holanda e Inglaterra.
Pois uma bula moderna foi gerada no nosso congresso e agora sancionada pelo presidente da república. Trata-se da lei que unifica os fusos horários nos estados a oeste de Brasília, incluindo aí toda a imensa região norte. Resultado disso é que os acreanos passarão a ter, grosso modo, o meio-dia real a uma hora da tarde. Efeito oposto ao dos estados do extremo nordeste, como Paraíba e Pernambuco, que têm o meio-dia aparente às onze horas da manhã, por usarem o mesmo horário da capital federal.
O problema pode não parecer tão grave, já que horários são uma convenção humana. Mas é, devido à sua real motivação. Essa lei foi fecundada e gestada pelos executivos dos meios de comunicação teletransmitida, digam-se, das emissoras de rádio e televisão. Com o dever de adequar a grade de programação aos critérios de faixa horária e de faixa etária do público, as grandes redes de comunicação do país descobriram que é mais econômico mudar os fusos horários do que flexibilizar o que (e quando) as suas afiliadas replicam pelos cantões do Brasil. Assim, elas podem manter uma programação homogeneizada, monolítica, sem gastos adicionais. Economia para os grandes conglomerados, desconsideração às pessoas.
A divisão do mundo em fusos horários é uma convenção, mas traduz uma lógica: se uma localidade pertence a um determinado fuso, significa que seu horário real está mais próximo ao horário real do meridiano central daquele fuso do que de qualquer outro. No Brasil, essa regra vale cada vez menos. Crianças paraibanas e acreanas desconfiarão dos seus livros de geografia quando perceberem suas sombras estranhamente alongadas em pleno meio-dia.

10 de abr. de 2008

Primeira noite do JECrim no Olímpico

Primeira noite do JECrim no Olímpico
tem total de sete atendimentos

Com a eliminação do Grêmio na Copa do Brasil a partir dos penaltis perdidos no jogo contra o Atlético Goianiense, diversos incidentes chegaram ao Juizado Especial Criminal que começou a funcionar no Estádio Olímpico na noite desta quarta-feira (9/4).

Em um dos casos, a Brigada Militar tentou conter a torcida. Um Sargento da Polícia Militar e um torcedor acabaram sendo direcionados ao Juizado. O PM sustentou que foi agredido com um soco durante o tumulto por torcedor que aparentava estar alcoolizado. Mediante um pedido de desculpas, o policial expressou compreensão de que o torcedor estava alterado devido à derrota e ambos chegaram a um acordo, com arquivamento do expediente.

Após, uma torcedora que mora com a mãe, "mas não faz nada", nem estuda ou trabalha, foi encaminhada por desacato à autoridade policial. Ela rejeitou a proposta de transação penal oferecida pelo Ministério Público para pagamento de cesta básica no valor de meio salário mínimo, embora ciente da possibilidade de ser processada criminalmente pelo ocorrido. A ação será distribuída para um dos Juizados Especiais Criminais do Foro Central.

Um outro caso foi o de um jovem de 20 anos acusado de causar tumulto. Ele é recepcionista, mora com a mãe, terminou o segundo grau, mas não estuda mais. Aplicando a Lei dos Juizados Criminais Especiais, o Promotor de Justiça ofereceu a proposta de transação. Foi aceita a obrigação de pagamento de multa de R$ 200,00 em favor de uma entidade beneficente. O Juiz esclareceu ao jovem que se os valores não forem pagos por meio das guias que foram entregues, poderá responder processo criminal.

Final dos trabalhos

A 1h30min da manhã desta quinta-feira, os trabalhos do Juizado foram encerrados. Os demais casos que surgirem serão encaminhados ao Plantão 24 horas do Foro Central.

O Corregedor-Geral da Justiça, Desembargador Luiz Felipe Brasil Santos, acompanhou os trabalhos juntamente com os Juízes-Corregedores Vera Feijó e Sandro Luz Portal.

Apoiaram o funcionamento do JECrim Mário Krzisch e Denise Nenê de Souza, Coordenadores de Correição da Corregedoria-Geral da Justiça; Eduardo Bruno Vaz Van Nyvell, Oficial Ajudante designado e a estagiária Lílian Tarakdian Dambros, do Foro Regional do Sarandi; Ricardo Luís Lichtler e Leonardo dos Santos Conca, da equipe do suporte do Departamento de Informática.

Leia notícias anteriores sobre o funcionamento do JECrim:

Realizadas primeiras audiências
no Juizado Especial Criminal no Olímpico

Rojão lançado em direção ao campo foi quarto caso atendido

(Adriana Arend e João Batista Santafé Aguiar)

31 de jan. de 2008

Obsoleto

O mundo mudou. Na verdade, está sempre mudando. "Tudo apenas se transforma" - disse Lavoisier. Mais que isso, tudo sempre se transforma. Mas ele estava enganado quanto a um ponto: nas transformações, coisas podem ser criadas, coisas podem ser perdidas. Claro que não em relação à matéria e à energia, que talvez seja o binômio que mais interesse à investigação científica. Mas naquelas outras coisas, talvez mais próximas da alma humana, as transformações podem ser tão profundas que o resultado não seja reconhecido; que o produto não mantenha relação com a matéria prima. Se mudam os rótulos, então há perda e criação, destruição e construção, crepúsculo e alvorada.
O mundo mudou. A órbita da Terra diminui; a Lua se afasta. A América segue para o oeste. O nível do mar sobe, mas o mar de Aral encolheu. As estações não são mais bem definidas e Porto Alegre nunca mais teve enchente - leite vigiado não derrama! As cidades cresceram, distritos se emanciparam. A Alemanha unificou-se, e o Iêmen também. A União Soviética não existe mais. A Birmânia e o Zaire mudaram seus nomes - mas será que mudou muita coisa? O Ínter também é campeão mundial. As pessoas que mal podiam comprar computador nas lojas, agora compram das lojas pelo computador.
O mundo mudou. Brizola morreu e, pasmem, Roberto Marinho também. Paulo Autran, Luciano Pavarotti, Saddam Hussein... Outras pessoas também morreram, mas muitas outras nasceram. Aliás, o nascimento e a morte de humanos devem ser os fenômenos mais registrados do mundo. Talvez só os de ratos nos ganhassem, se eles fizessem esse tipo de registro.
Nem tudo mudou. Ainda há lugares belos no planeta. Ainda há pessoas passando fome. Ainda há guerras. Ainda há pessoas mentirosas e corruptas que lutam para tirar o poder de outras pessoas mentirosas e corruptas. E Niemeyer continua vivo e fazendo projetos. Paixões brotam, amores morrem, e ódios se alimentam, como sempre.
O meu mundo mudou. Certezas que eu tinha viraram dúvidas. Outras, esqueci. Relações mudaram, porque as pessoas mudam. Elas mudam seus objetivos, seus valores, suas companhias. Nem sempre para melhor. Pessoas entram e saem das vidas umas das outras, mas às vezes não estive preparado para essas transições. Então, deslumbrado com a entrada triunfal e a morada majestosa, fui surpreendido com a saída repentina e o vazio frio que se espalhara pelos salões. A festa tinha acabado, a cerveja esquentou e as pessoas foram embora.
O mundo sempre muda e nada do que passou voltará a ser. Não como antes. Mas eu não me preparei para isso e fico agora contemplando diariamente os estilhaços que me sobraram. Sinto-me obsoleto, esquecido num canto, chorando as lembranças de um tempo ultrapassado.

19 de out. de 2007

Estado e religião

Sou católico de batismo, mas não professo a fé há muitos anos. Entre os vários rótulos que podem me atribuir, considero "agnóstico" o menos pretensioso. Dito isso, quero abordar um assunto em que penso seguidamente: a relação entre estado e religião. Começo o texto refletindo sobre as causas da tão propalada harmonia inter-religiosa que existe no país.
É fato que ela existe. Mas não sei se sua causa principal seja, de fato, a boa vontade ou a tolerância inata do brasileiro. Já fomos um país oficialmente católico e ainda o somos estatisticamente. Mas que tipo de catolicismo praticamos (pretérito perfeito e presente) aqui? Um catolicismo lânguido, sem muita vontade com suas obrigações, ao exemplo do que somos como sociedade em geral. Parece-me que até na religião tratamos as questões com "jeitinho".
Muito se tem falado sobre essa praga cultural nacional, que vai do burlesco furar fila do cinema até os grandes escândalos de corrupção em Brasília, passando pela cumplicidade com a pirataria e o contrabando e pela complacência, por vezes pasmada, a tudo isso. Essa indiferença, quase generalizada, que faz com que não batalhemos cotidianamente por uma sociedade melhor, calcada no exemplo individual. Talvez esse "tanto fez, tanto faz", transposto ao campo religioso, é que tenha nos levado a essa convivência harmoniosa. Sim, porque me lembro muito bem de ler, nas cartilhas de catequese e de crisma, condenações veementes a outros tipos de manifestações religiosas, mormente ao espiritismo e ao candomblé. Por que essas condenações nunca tiveram um efeito belicoso? Creio que é pelo mesmo motivo que leva o católico brasileiro médio a não ir à missa, a não comungar, a não confessar, a não pagar o dízimo. Se for assim, o jeitinho, através de seu viés de indolência religiosa, acabou por produzir a boa convivência entre credos tão distintos,
inclusive o sincretismo.
Outro ponto que me chama atenção é a questão dos direitos civis. Temos avançado muito nesse campo, e há muito ainda a ser discutido e decidido. Mas fazemos isso a despeito das orientações de Roma. Divórcio e inseminação artificial são alguns dos exemplos que me vêm à memória agora. Mas vale dizer que as âncoras papais não são os únicos entraves ao avanço das conquistas civis. Lembro um caso de médicos que precisaram de garantir na justiça uma transfusão de sangue para um menino criticamente doente, porque a agremiação religiosa de seus pais considerava tal ato ofensivo a deus, o que os fez proibirem a transfusão.
Isso posto, vale dizer que estamos muito mais avançados em jurisprudência do que em legislação, uma vez que nossos legisladores têm o débito moral com seus eleitores e, muitas vezes, não avançam em questões cruciais por temerem comprometer suas reeleições. Nesse contexto, causa-me preocupação o crescimento de certas linhas neopentecostais efusivas, especialmente quando associadas a meios de comunicação em massa. Em suas pregações, os pastores e bispos, muitos autoproclamados, não escondem seu desamor ao catolicismo, à umbanda e a tudo que for diferente e não lhes pagar o dízimo. E sua condenação veemente atinge, obviamente, tudo que não se encaixar nas leituras inspiradas que fazem da bíblia, muitas vezes literais.
Diante desse cenário, cabe a pergunta: a harmonia religosa será mantida caso cristãos exaltados passem a ser maioria da população? Até que ponto os direitos civis estabelecidos estão garantidos? Até onde é possível manter um estado de direito - e de fato - laico, se a população entrar em ebulição ou conflitos religiosos? É certo que o estado brasileiro ainda sofre de lacunas na sua laicidade, como os feriados católicos e os crucifixos suspensos na maior parte das repartições públicas. Ou ainda como a lei estadual que permite sacrifício de animais para oferenda em cerimônias de origem africana. Mas felizmente, a ingerência religiosa acaba por aí. Por enquanto.

19 de set. de 2007

SVQR: O Senado e a Vergonha de Roma

Com os sucessivos escândalos vindos do Senado Federal, a casa mostra sua incapacidade de lidar com eles de uma forma eficaz e que esboce algum tipo de apego à ética política e à honra. O corporativismo retórico acaba por gerar mais escândalos, paralisa os trabalhos que deveriam ser executados e expõe ao ridículo (ou ao deplorável) um dos componentes do legislativo federal.
Mais do que isso, põe em xeque a própria razão de ser do Senado. Vários meios de comunicação nacionais, mormente revistas, colocam em pauta a possibilidade de extinção do Senado. Obviamente a reação dos senadores foi exaltada e contrária a qualquer menção nesse sentido. Não poderia ser diferente, pois a norma de comportamento de seres humanos indica que não gostam de alterar seu status quo se este lhes for proveitoso. Ora, é sabido que muito executivo de multinacional não ganha um salário tão polpudo quanto o dos senadores. E certamente quase nenhum deve ter um horário de trabalho tão flexível e exíguo. E a estabilidade por 8 anos...
Mas, afinal, qual a função do Senado? A menos de funções específicas constitucionais, o Senado faz exatamente o mesmo que a Câmara: legisla (faz leis) e fiscaliza o executivo. E em relação às funções específicas constitucionais, elas couberam ao Senado porque já existia o Senado quando a Constituição foi feita. Um senador não tem DNA especial ou formação acadêmica superior a um deputado para que tais funções devam caber somente aos senadores. Tanto é verdade, que a cada eleição, muitos deputados almejam virar senadores!
Claro que, em vista disso, a retórica retumbante e desesperada dos senadores joga frases de efeito aos ouvidos moucos da população, para que a impressionem e tentem impedir o acolhimento da idéia. O discurso agarra-se em "valores democráticos" e "cláusulas pétreas" da Constituição, como seriam o pacto federativo e o equilíbrio regional.
Pois o Senado é justamente um fator de desiquilíbrio na representatividade regional! A região Sul, por exemplo, tem 13% da população do país e 11% dos senadores. A região Nordeste tem 25% da população, mas 33% de senadores. Mas não pára por aí: a região Norte, que tem somente 7% da população, tem milagrosos 26% do Senado Federal! Isso não é acalentar a desigualdade regional?
Pois bem. Em resposta a isso, argumentarão que os senadores representam os entes federados e, portanto, essa representatividade correspondente à população cabe à Câmara. Balela! Primeiro, porque as fórmulas empregadas para a distribuição de deputados também causam distorção, ainda que em menor grau. Segundo, porque o princípio de eleição de um senador é exatamente o mesmo que elege um deputado: votação direta do povo. Claro, no caso da eleição de um senador, contam somente os votos individuais recebidos e não há coeficiente eleitoral. Mas é o mesmo povo que vota nos deputados que elege os senadores. Não há vinculação nenhuma, por exemplo, entre o senador eleito e o governador do estado de origem, ou entre o senador e a respectiva assembléia legislativa; no fim, é apenas mais um político eleito para estar em Brasília. A representação propalada do ente federado fica no plano da divisão dos gabinetes, mas perde-se completamente na origem.
A questão de existir ou não Senado é bem mais importante e menos intocável do que parece. Não é mais grave ou visceral, nem menos fundamental do que escolher entre presidencialismo e parlamentarismo, escolha que já fizemos. E há de se lembrar que há muitos países que funcionam muito bem com um simples congresso unicameral. No fim, o Brasil possui duas câmaras legislativas que conflitam e barganham diferente e inconsistentemente com o executivo, isso quando não os fazem entre si. É custo em dinheiro, é custo em tempo. E neste país, há falta dos dois!

19 de jul. de 2007

O Sermão da Sexagésima Segunda

Abaixo consta o enunciado da questão 62:
Um programa antivírus pode detectar vírus através das suas assinaturas, procurando-as em todos os arquivos armazenados em um computador. Assim sendo, considere as situações propostas abaixo:
I - A base de dados das assinaturas não vem sendo atualizada freqüentemente.
II - Arquivos estão sendo armazenados no computador de forma compactada.
III - Arquivos estão sendo armazenados no computador de forma cifrada.
Quais delas poderiam impedir o antivírus de detectar um vírus?
(A) Apenas I
(B) Apenas II
(C) Apenas III
(D) Apenas I e III
(E) I, II e III

Como alternativa correta a esta questão, publicada no gabarito da prova, foi apresentada a letra “D”, indicando que apenas as situações I e III impedem o antivírus de detectar um vírus.
Certamente a intenção da Comissão do Concurso ao fazer a questão foi testar o conhecimento do candidato sobre a possibilidade de as ferramentas de antivírus poderem esquadrinhar um arquivo compactado, examinando cada um de seus componentes à procura de vírus.

Entretanto, a alternativa assim posta como correta, por ingenuidade, descuido ou esquecimento, ignora o fato de que as ferramentas de antivírus não podem fazer a análise de arquivos compactados se os mesmos estiverem protegidos por senha.
Senão vejamos a informação que se encontra no sítio da Computer Associates - CA, reconhecida empresa de tecnologia da informação, numa página que instrui sobre como usuários devem enviar exemplos de vírus para análise (em http://www3.ca.com/securityadvisor/newsinfo/collateral.aspx?CID=33514):

“...
Additional instructions for compressing samples:
Please compress and password-protect your file before submitting it to our researchers. If you do not
compress and password-protect the file, it may be intercepted or blocked and fail to reach us.
....”

Bem, o texto acima diz, em bom português, que o usuário deve “comprimir e proteger por senha (grifo original) seu arquivo antes de submetê-lo aos pesquisadores da empresa. Se o usuário não comprimir e proteger por senha o arquivo, ele pode ser interceptado ou bloqueado e falhar em alcançar a empresa.”.

Ora, isso implica dizer que a proteção por senha impede a análise do conteúdo do arquivo compactado, e a sua possível interceptação. Ainda neste sentido, podemos ver o que a empresa Techs, sediada em Araraquara, explica aos seus usuários pela proibição do envio de arquivos compactados protegidos por senha, no item de letra “j”, dentro da sua página de perguntas mais freqüentes (em http://www.techs.com.br/EmailProtegido/Geral/Faq.shtm#j)

j) Por que não consigo enviar arquivo(s) compactado(s) com senha? Recebo o erro PASSWORD PROTECTED.
Por medidas de segurança não permitimos que arquivos compactados com senha (possívelmente podem conter vírus) sejam enviados através dos nossos servidores.

A restrição imposta por essa empresa, talvez drástica, tem um único mas insofismável motivo: arquivos compactados e protegidos por senha não podem ser analisados por uma ferramenta de antivírus.
Diante de todo o exposto, fica evidente que arquivos armazenados no computador, ou enviados pela Internet, armazenados de forma compactada podem impedir sim que a ferramenta antivírus detecte um vírus dentro deles.

A proteção por senha em um arquivo compactado impede a perscrutação ao(s) seu(s) componente(s), permitindo apenas que informações mais gerais como nome e tamanho do(s) mesmo(s) sejam acessados.

Assim sendo, é fácil perceber que o enunciado da questão foi insuficiente para contemplar as possibilidades que envolvem o processo de compactação de arquivos, bem como a característica – cada vez mais comum – de proteção através de senhas.
Por tal imprecisão, o candidato com o conhecimento adequado exigido para este concurso pode ter ficado hesitante em decidir a alternativa correta e, por fim, pode ter marcado – e frisemos que acertadamente – a alternativa “E” como correta, que abrange também a situação exposta de número II.

É possível a Comissão pensar no contra-argumento de que a proteção por senha esconde, na verdade, um processo de criptografia, fato este que portanto seria enquadrado pelo item III. Mas novamente surge a formulação do enunciado da questão: “armazenados na forma compactada”. Quando um software de compactação é utilizado, a compressão dos dados é sua finalidade primeira, fundamental. Prova evidente disso é que justamente são chamados “programas de compactação” e não “programas de cifragem”. A criptografia simétrica aí empregada, mormente o Advanced Encryption Standard ou correlatos, nada mais é do que um instrumento a se conseguir o benefício adicional da proteção por senha, ou seja, uma atividade-meio, acessória, secundária. E prova cabal disso é que os arquivos compactados e protegidos por senha, vale dizer, cifrados, mantêm as mesmas extensões e associações de programas daqueles que simplesmente são compactados sem processo adicional, porque o fator importante, determinante, suficiente e necessário é estarem compactados, estando ou não cifrados. Destarte, essa alegação não tem consistência e, não sendo consistente, não faz mais do que mostrar, outra vez, a formulação incompleta, equivocada e ambígua da questão.

A Comissão também não pode usar tal argumento porque o Edital de Abertura do Concurso não exige do candidato conhecimento aprofundado sobre programas de compactação. Na página 10 do mesmo, vemos a única referência do programa da prova à questão de antivírus:
Segurança da Informação - Conceitos gerais de Segurança da Informação. Noções de Normas ISO para gestão de segurança da informação. Proteção contra vírus e outras formas de softwares ou ações intrusivas. Noções de criptografia, assinatura e certificação digital.
Então, de um lado temos a informação comprovada de que os programas antivírus não conseguem fazer a análise de arquivos compactados protegidos por senha e, de outro lado, nem o programa da prova do concurso, tampouco a bibliografia por ele apresentada, fazem referência aos detalhes de funcionamento dos programas de compactação. Então, o candidato preparado com o conhecimento exigido para a prova houve de considerar a assertiva II pertinente à resposta da questão. Porque não lhe foi demandado conhecimento sobre os meandros dos aplicativos de compactação, mas tão somente sobre as formas de proteção contra vírus.

Se a intenção do formulador da questão foi versar sobre a capacidade de os antivírus poderem descompactar arquivos para a verificação das assinaturas, deveria ter ele explicitado, de alguma forma, que os arquivos haviam sido submetidos a um puro e simples processo de compactação, sem procedimentos adicionais. Ao não fazê-lo, citando apenas “armazenados em forma compactada”, deixou questão em aberto se os arquivos referidos estão, ou não, protegidos por senha, permitindo ao candidato considerar fundamentadamente ambas as hipóteses.

Além disso, se o algoritmo de compactação for inédito, experimental ou estranho, e o computador não lhe oferecer suporte para a descompressão dos dados, a ferramenta de antivírus também nada poderá fazer para descompactar arquivos, impossibilitando a varredura dos mesmos. E nesse caso não é possível argumentar-se qualquer coisa. Algoritmos de compactação têm finalidade e funcionamento totalmente diferentes de algoritmos de cifragem. Entretanto, se o algoritmo compactador não for reconhecido pelo sistema operacional do computador ou pela ferramenta de antivírus, pelos motivos acima descritos, a mesma não detectará nada no arquivo assim compactado, ainda que infectado.

Pode-se citar como exemplo irrefutável desse cenário o recebimento e arquivamento de um arquivo compactado com o sistema ARJ. Tal sistema era muito comum nos meios informáticos nas décadas de 1980 e 1990, mas caiu em desuso, suplantado pelos concorrentes. Ora, ainda existem arquivos compactados nessa forma, mas os computadores atuais não têm capacidade de descomprimi-los de forma automática, nem os antivírus de detectarem vírus dentro deles. No entanto, são pura e simplesmente arquivos compactados.

De uma forma ou de outra, a questão falha ao não especificar em que condições o tal armazenamento “em forma compactada” foi realizado. Se ao candidato faltam informações e definições, às respostas sobram alternativas. E essa falta de clareza não se admite em uma prova de concurso público.

Assim sendo, uma questão que, por um lado, contém em seu enunciado uma lacuna de precisão e, de outro, uma resposta totalmente questionável porque admite, sem discussão, também outra resposta, deve ser imperiosamente anulada.

5 de jun. de 2007

Confiança

Um profissional da área de segurança de informações sabe que a manutenção do sigilo de senhas é um dos fundamentos da credibilidade de qualquer sistema. Algumas diretivas que devem ser observadas são o uso de senhas diferentes para cada finalidade, a troca periódica - preferencialmente mensal - de todas elas, a não repetição de senhas usadas e a utilização dos mais variados tipos possíveis de caracteres. Dessa maneira, na maioria das situações, o custo para quebrar uma senha ou chave criptográfica envolve muito mais esforço e custo do que o benefício trazido com a sua descoberta.
Infelizmente, profissionais da área sabem que essas diretivas são dificilmente seguidas, e que a manutenção do sigilo é uma regra freqüentemente ignorada. Isso pode deixá-los normalmente frustados ou revoltados, mas a vida acaba ensinando que há, pelo menos, três motivos razoáveis, senão fortes, para esse aparente descuido. Um primeiro motivo é a pouca importância que o bem ou sistema protegido pela senha possa ter, ou o pequeno prejuízo decorrente de um uso possivelmente mal-intencionado. Um segundo motivo é alguma necessidade urgente, alguma situação que exija o compartilhamento desse segredo para a obtenção de uma finalidade maior. E o terceiro e mais nobre dos motivos resume-se a uma simples palavra: confiança.
Confiança é algo difícil de definir em toda sua amplitude, mas é algo bom de ser sentido. Mas é fácil trazer à tela com exemplos. Confiança é precisar de compartilhar uma senha de correio eletrônico ou de acesso a sistemas e saber que não terá a privacidade invadida, nem será alvo de atitudes maliciosas ou fraudulentas. Claro, nem sempre haverá tal necessidade mas, existindo, como é bom e gratificante saber que se pode contar contar com a ajuda de outra pessoa, e que a informação passada está segura e a salvo.
Mas confiança vai muito além de exemplos da vida digital. Pode ser também emprestar algo valioso, afetiva ou financeiramente. Emprestar uma coleção de discos importados do filme preferido, precioso, é também uma forma de demonstrar esse crédito. E se os discos fossem danificados? A confiança está não apenas depositada no desejado zelo que o depositário tomará, mas também na sua atitude caso ocorra algum problema. Simples assim. E dessa mesma forma, um carro pode ser emprestado, tanto para uma noitada amorosa de um amigo, quanto para outro que dele necessite para uma longa viagem profissional.
Uma das formas mais simples e, ao mesmo tempo, controversa e profunda da demonstração desse sentimento, é o empréstimo de uma escova de dentes a um amigo. A escova de dentes é tida como algo muito íntimo, indevassável, que não pode ser passada a outra boca que não a do proprietário. Puro tabu! Se o amigo é confiável e se seus hábitos sanitários são conhecidos e adequados, é muito melhor pedir-lha emprestada do que passar um turno com a boca sendo devastada por açúcares e suas fermentações. Claro que essa não é uma situação ideal, mas é uma possibilidade de higiene que deve ser considerada. Para os assombrados, ela pode ter o impacto psicológico atenuado pela comparação com um simples beijo. Se o amigo é digno de ser beijado (por alguém), então é digno de receber (ou ceder) a escova. No fim, apenas uma questão de confiança, com as vantagens de refrescância e de anti-sepsia da pasta dental.

22 de mai. de 2007

Da Inveja

Durante a infância tive muitos amigos que, de alguma forma, mantinham estreitas ligações com seus irmãos. Acredito que a pouca diferença de idade entre eles favorecia esse entendimento, embora também pudesse criar clima de disputa, principalmente mais tarde, na adolescência. Dentre os amigos que agregavam seus irmãos ao meu círculo de amizade, posso citar o Marcelo e a Fernanda; depois o Roberto com o Carlos; depois o André com o Rafael; eles conseguiam interagir de uma maneira que eu não podia, ou não conseguia, com os meus. Mais do que isso, partilhavam de interesses comuns e se defendiam de inimigos externos, muitas vezes representados pelo controle dos pais.
Eu não tinha essa vivência em casa. Meu irmão e minha irmã, ambos um tanto mais velhos do que eu, viviam preocupados com seus próprios problemas ou criando alguns para mim. O ambiente era permanentemente conflituoso. Lembro-me de fazer conchavos com um ou outro conforme o decorrer das brigas e disputas (anos depois, fui perceber uma analogia dessa situação com as "eternas" guerras e alianças entre Eurásia, Lestásia e Oceania, do livro 1984). Além disso, havia um clima de delação: o deslize de algum era imediatamente reportado à autoridade vigente ou usado como argumento em alguma chantagem.
Essa situação me incomodava, e era mais um fator que me fazia procurar abrigo afetivo fora de casa. Amigos foram tornando-se cada vez mais importantes e, ao mesmo tempo, como causa e efeito, meu diálogo familiar diminuía. Devo admitir, entretanto, que muitas vezes busquei conforto emocional na minha irmã, que prontamente me socorreu. Com o tempo, acabei criando com ela o mais forte vínculo dentre meus familiares.
Dessa maneira, fui buscando nos amigos os laços fraternos mais fortes, o que muitas vezes me deixava numa posição de dependência ou de deslocamento. Por melhor que um amigo seja, ele não tem o compromisso de um irmão e, na maioria da vezes, não quer ter. Uma boa comparação seria dizer que irmãos são como cães: podem latir, morder, mas sempre estão à volta; já amigos são como gatos: são mais graciosos, divertidos, mas também mais ariscos, e não se pode contar muito com eles.
E ultimamente tenho reparado nisso, nesse binônio "amigo-irmão", mistura de compromisso formal sangüíneo e dedicação espontânea e desinteressada. No exemplo dos irmãos que tocam violão e cantam de noite no quarto; ou daqueles que camuflam uma garrafa de uísque como presente para poder beber até cair num bar (e agora o caçula lamenta a falta do outro, que se mudou para longe); ou da cumplicidade daqueles que, como numa traquinagem, batem e consertam o carro, escondidos, para os pais não ficarem sabendo. Tudo isso me faz sentir uma inveja parda, uma admiração nostálgica de algo bom e profundo que não tive.

23 de mar. de 2007

Oito maneiras de melhorar o Brasil: política

  1. Todos os cargos eletivos devem ter mandato de 5 anos, para melhor implementar políticas estruturais. Quatro anos é pouco, e oito anos é um exagero.
  2. Todas as eleições devem ser feitas simultaneamente, acabando com a bagunça eleitoreira que paralisa o país a cada dois anos.
  3. Os mandatos devem ser dos partidos. Candidato eleito que quiser trocar de partido, perde o mandato.
  4. Ninguém deve poder se candidatar ao mesmo cargo consecutivamente. Isso evita a profissionalização vil dos políticos e a personalização dos mandatos.
  5. Voto distrital urgente: o país (e os estados) é (são) divididos em “distritos eleitorais”, todos com a mesma população e cada um desses distritos elege apenas um deputado. Isso acaba com os currais eleitorais, acaba com a distorção na representatividade do povo e, por fim, evita que candidatos bizarros e desconhecidos sejam eleitos na esteira de um campeão de votos apenas porque estavam no mesmo partido.
  6. A função de desembargador não pode ser um cargo vitalício. Um desembargador deve ser eleito entre os juízes de um determinado distrito, para um mandato de, também, 5 anos. Isso traz transparência ao Judiciário, tanto no quesito administrativo quanto jurídico.
  7. Para os cargos eletivos do Executivo e do Legislativo, deve ser aplicada uma prova de aptidão aos candidatos interessados, com questões relativas à administração pública, conhecimentos gerais, divisão e organização do estado e dos poderes. Preferencialmente, os candidatos devem ter ensino médio completo.
  8. Para os cargos executivos, deve haver política pública de incentivos que profissionais com competência adequada assumam as chefias. Um engenheiro na secretaria de obras, um médico cuidando da saúde e um economista cuidando da fazenda, por exemplo, trariam benefícios à toda comunidade e diminuiriam a politicagem vigente.

15 de mar. de 2007

O caos nosso de todo o dia

Um amigo meu, chamado Antônio, costumava falar uma frase sucinta mas de grande significado. Não me lembro das palavras exatas que permitiriam a concisão e o efeito impactante, mas ela dizia, mais ou menos, que o mal é a pura entropia, e o bem requer gasto de energia. Pode parecer uma papalvice física, mas o enunciado traz consigo algumas verdades sobre a vida humana, ou pelos menos, pontos para reflexão.
A entropia, tomada como sinônimo do próprio caos, da aleatoriedade, pode ser compreendida socialmente como a falta de uma orientação, de diretrizes específicas com o fim de manter e aprimorar um núcleo social. Assim, por exemplo, podemos considerar cada ser humano como um ente em busca de satisfazer suas necessidades ou vontades; na visão macroscópica, no conjunto dos entes, essas buscas mostram-se desorganizadas e conflituosas. Faz-se necessário, então, um emprego de energia com o fim explícito de resolver impasses, organizar os entes e buscar o bem comum. Essa energia é o estado, materialização da energia que a sociedade precisa despender em prol de si mesma, para viver em aceitável harmonia e avançar. A estrutura monstruosa do estado é onerosa e, por vezes, paradoxalmente sufocante. Mas seria possível existir civilização sem ele?
Claro, esse é um exemplo extremo da necessidade do gasto de energia, no caso, transformada em uma organização. Há também exemplos mais simples, como a tendência geral pelo mínimo esforço (a entropia). Podemos caminhar pelas ruas e atirar o lixo - uma lata vazia de refrigerante, por exemplo - na sarjeta. Essa é a solução mais simples, mas que causará estragos à natureza e, provavelmente, ao saneamento público. A alternativa correta, mas que gasta mais energia, é caminhar até uma lixeira, e lá depositá-lo. Outro exemplo é a compra de um produto contrabandeado, notavelmente mais barato. A economia de energia (dinheiro) é evidente, mas levará a problemas de arrecadação para o governo, com prováveis conseqüências nas áreas de segurança pública e geração de empregos. Podemos pensar também na organização de correspondências logo ao serem recebidas. Isso exige um empenho na hora e é mais fácil simplesmente acumulá-las sobre uma mesa. Depois, entretanto, essa simplificação cobrará seu preço, exigindo tempo adicional maior para uma derradeira arrumação.
Mas também podemos perceber esse fundamento nas relações humanas. Manter uma relação é custoso. Exige disposição para dialogar, para compreender, para resolver as querelas. Isso vale para amizades, namoros e todos os tipos de relacionamentos, inclusive os ligados por laços sangüíneos. É muito mais fácil deixarmos nos levar pelo orgulho ferido, pelo egoísmo aflorado, pelo tédio raivoso do que gastar tempo, saliva e massa encefálica buscando soluções e equilíbrio. É muito mais fácil, também, apaixonar-se pelo novo, por aquele que é encantador e desconhecido, mas que não tem compromisso, nem profundidade, do que investir numa paixão já explorada por alguém que já conhecemos e que igualmente nos conhece a fundo, para o bem e para o mal. Pois a monotonia do cotidiano, os pontos de vista diferentes e a imperfeição da índole humana atuam como forças de dilaceração sobre os relacionamentos; somente sobreviverão aqueles que investirem nas forças de coesão, e isso requer vontade e atitude, enfim, emprego de energia.
Para que as relações humanas e sociais sejam positivas, edificantes e sólidas, é necessário que não poupemos energia e disposição. Precisamos querer a continuação, a construção e o bem futuro e não desistir nos reveses, mandando tudo às favas. Caso contrário, teremos relações superficiais e imediatistas, com efeitos colaterais indesejados ou mesmo nocivos a médio e longo prazos. Quando for cada um por si, o caos será contra todos.

26 de dez. de 2006

Cidade Baixaria

Conheci a Cidade Baixa há cerca de dez anos, logo quando vim morar em Porto Alegre. Na época, residia no centro e a Loureiro da Silva era uma linha mágica que separava o Centro velho, cinza e decaído desse bairro boêmio, com seus arvoredos generosos e suas gentes alegres. Em realidade, dois locais dividiam minha preferência na hora de beber uma boa cerveja gelada e pensar na vida: o bar flutuante do Guaíba, melhor escolha nos dias em que havia pôr-do-sol ou que a temperatura favorecia, e os bares infinitos da Cidade Baixa.
Três anos e pouco depois, acabei me mudando, de mala mas sem cuia, para a Cidade Baixa. Lá pude aprofundar ainda mais minha cidadania porto-alegrense, nas discussões políticas, culturais e mesmo inúteis regadas a, claro, boas doses de cerveja. Lá descobri que o bairro tinha uma localização perfeita; via de acesso a quase todos os cantos da cidade, fica ao lado do centro, diametralmente oposto à Osvaldo Aranha - isso sendo um ponto a favor - e banhado pela Redenção. Além disso, contava com toda uma sorte de serviços, de forma que muito poucas vezes fazia-se necessário meu deslocamento aos outros pontos do arraial.
Pois, em determinada época, percebi que o bairro havia sido invadido por uma horda de flanelinhas, sendo a maioria deles disposta a destruir a civilização e a cultura. O problema, para mim, não era nem tanto os flanelinhas, pois na época eu não tinha carro, mas os tipos suspeitos e mal-encarados que assomavam junto. E houve também uma invasão de criancinhas vendendo todo o tipo de coisas, incluindo aí coisas que não deveriam ser vendidas. "Onde, diabos, está o Conselho Tutelar?", eu pensava.
Foi mais ou menos nessa época em que fui assaltado. Uma meia dúzia de indivíduos bonezudos aproximou-se de mim e de meu amigo quando tomávamos o sorvete ordinário do bairro. Blefando que estavam armados, levaram dez reais meus. A sorte foi o pequeno valor do furto, embora o estrago pudesse ter sido bem maior. O azar foi a sensação de impotência frente à falta completa de policiamento. Apesar da nítida sensação de que não estavam armados, nós dois apanharíamos com louvor daquela pequena corja caso esboçássemos reação. Na seqüência ao episódio, passei por momentos de liberdade vigiada, quando eu saía à noite mas desconfiava de qualquer vulto que se aproximava.
Agora faz pouco mais de um ano que minha rua - a José do Patrocínio - transformou-se na nova Osvaldo. Atraídos por cerveja a preços populares, os tipos mais estranhos - normalmente vestindo preto ou calçando AllStar - tomaram de assalto minha vizinhança. Isso em si não representaria muita coisa, não fosse o fato de que boa parte deles gosta de consumir uma certa erva ilegal. Outra parte gosta de aspirar fileirinhas do pozinho branco - isso tudo a céu aberto, em plena rua, principalmente na esquina com a Sarmento Leite. Então, obviamente, a concentração de traficantes e o sortimento de meliantes aumentou como nunca visto dantes!
Os pedintes chegam e dizem que estão fazendo um favor em não assaltar. E praguejam e ameaçam caso não levem os trocadinhos solicitados. Os bonezudos andam livremente pelas ruas, contam que recém saíram da cadeia e que vão "dar um estouro" caso não se lhe passe o dinheiro e o celular. E os flanelinhas, incólumes e impolutos, zelam pelo patrimônio alheio já que o governo não o faz.
Ah, e a polícia? Bom, para não ser injusto, vejo eventualmente policiais fazendo blitz na esquina mais tranqüila e iluminada (da Lima com a República), no horário mais movimentado e seguro (até a meia-noite). Na esquina do pó e nas demais ruas escuras e, agora, obscuras do bairro, assim como nos horários em que mais se faz supor necessário o policiamento, passam de relance, às vezes até acenando para seus insuspeitos freqüentadores. Como que dissessem: "Aproveitem a noite!"



12 de jul. de 2006

O Que Não Deve Ser Feito

Eu estava bem disposto a escrever um texto a respeito do Estatuto da Igualdade Racial, que está para ser votado no Congresso Nacional. Mas achei um excelente artigo de Antônio Carlos Prado, chamado "Qual é a sua cor?", publicado em Revista IstoÉ, que diz muito do que eu penso a respeito.
Mas mesmo assim resumirei em alguns tópicos os principais problemas que vejo nesse projeto:
  1. O Estatuto oficializa uma discriminação que lutamos há décadas e diariamente para não ter. Inclusive está na Constituição Federal que as pessoas não podem ser discriminadas por raça, cor, credo, etc.
  2. O Estatuto cria uma uma separação racial maniqueísta, superficial e irreal ao classificar as pessoas em "negros" e "não-negros". Ignora décadas (ou mais) de miscigenação e de entrosamento cultural que houve no país. Ignora inclusive que os africanos vieram de nações e etnias diferentes, falavam línguas diferentes e tinham religiões diferentes.
  3. Dessa forma, usa a prerrogativa da reparação histórica para impor sistema de cotas, com percentuais completamente arbitrários. Esses percentuais podem rapidamente passar de mínimos exigidos para máximos praticados, causando o efeito contrário ao desejado.
  4. Catapultar pessoas por sua cor, e não pela sua qualificação, é medida paliativa que não resolve os problemas sociais graves existentes, como a deficiência e escassez da educação pública.
  5. O Estatuto ignora que um dos grandes méritos da democracia brasileira foi lançar à pobreza também os brancos, oriundos principalmente do êxodo rural. A que destino estará fadado um branco, pobre, estudante do ensino público?
  6. O Estatuto ignora que a cultura afro-descendente já é amplamente divulgada e a base mais forte da cultura nacional. É impossível pensar o Brasil sem lembrar das várias influências artísticas e culturais de origem africana, que já dominam a preferência dos grandes meios de comunicação.
  7. O Estatuto cria oficialmente três castas no país: a dos que conseguem as coisas por mérito próprio; a dos que conseguem por ser beneficiado pelas cotas; a dos que não conseguem nada.
  8. Aliás, como pode se chamar de "Estatudo da Igualdade", se prevê justamente o oposto, que é discriminação e favorecimento?
  9. Enfim, está na hora dos homens públicos pensarem com responsabilidade nas questões sociais, como planejamento familiar e controle de natalidade, amplo acesso à educação pública, gratuita e de qualidade, saneamento e urbanização das favelas. O resto é demagogia pura e simples.

11 de jul. de 2006

Aldeia Global

Certa vez li num livro de História que a cultura egípcia sobrevivera a quase todas invasões, menos à cristianização. Os cristãos acabaram com todo o esplendor daquela ancestral cultura camito-semítica, preservando apenas a língua, então registrada com uma variante do alfabeto grego, ao que se costumou denominar copta. Depois veio a invasão árabe e o Islã, e por ironia do destino, foram os cristãos que preservaram a antiga língua egípcia na sua liturgia e em traduções da Bíblia. Foi graças ao conhecimento de copta que Champollion pôde decifrar a escrita hieroglífica da pedra de Rosetta.
Enfim, o Egito virou uma república árabe, na língua, na escrita e na religião. Os árabes, outro povo semita, espalharam sua cultura mundo afora, e ela foi sobretudo absorvida na África Setentrional. Apesar da invasão árabe em vastas áreas da europa, a sua língua não vingou, exceção feita à Malta. Lá se fala o maltês, uma derivação do árabe, mas escrito com alfabeto latino, talvez porque a população seja majoritariamente católica.
Já na Ásia, terra de povos muito antigos e culturas muito bem arraigadas, a religião e a escrita venceram, mas não a língua. É o caso do Irã, país onde se fala persa, escrito agora com as letras escorridas importadas do árabe. Os persas, povo indo-europeu muito antigo, rezam agora voltados para Meca. O persa, por sinal, é uma língua próxima do urdu, também escrito com alfabeto árabe, língua oficial do Paquistão, que como sabemos, também é um país muçulmano. O interessante é que o urdu é praticamente a mesma língua que o hindi, língua oficial da Índia. Motivos religosos fizeram o primeiro ser influenciado pelo árabe e o persa, e o segundo pelo sânscrito, língua clássica e sagrada do bramanismo, principal religião dos indianos. Por sinal, a maioria das línguas faladas na Índia usam a escrita chamada devanagári, inclusive o próprio hindi.
Os turcos, por sua vez, são originários de tribos altaicas, parentes dos mongóis. Convertidos ao islamismo, já escreveram usando o alfabeto árabe, mas hoje o fazem com o romano. Assim como a maioria das repúblicas turcomanas da Ásia Central, embora algumas ainda usem o cirílico, resquício da época sob influência russa. Mesma influência que ainda justifica a escrita cirílica usada para o mongol.
A Rússia, sede de um dos patricarcados ortodoxos, é um país de maioria eslava. Os eslavos também são outro grupo indo-europeu. De uma forma geral, usam o cirílico quando são ortodoxos, e o romano quando são católicos. Assim, na Sérvia a língua que é escrita ao jeito de Moscou, na Croácia é escrita à moda de Roma. Aliás, as ex-repúblicas da Iugoslávia formam uma sopa étnico-religiosa muito peculiar.
Alheios a toda essa suruba cultural que virou o Velho Mundo, os nossos índios foram catequizados e viram suas culturas suplantadas pelo português crioulo do Brasil. Desprovidos de sua identidade, já foram vítimas de tentativas de escravização e de extinção. Agora vivem sob a política oficial de preservação, embora seja discutível o que se deseja preservar, pois são dependentes de uma sociedade que os coloca à sua margem. Hoje estão aí, vendendo cestinhos nas feiras, ou morrendo de tédio e cirrose alcoólica.

29 de jun. de 2006

Página em construção

Acho muito engraçado quando entramos em alguma página da Internet em busca de alguma informação e encontramos apenas um “Página em Construção”. Ela está lá, tem nome, ocupa espaço, mas ao mesmo tempo é vazia, não tem informação. Significa apenas que não é, mas que pretende ser. Às vezes, encontrar uma página dessas pode ser frustrante: ela pode ter sido bem indicada, ter tido uma boa referência, mas por algum motivo está lá, parada, estática. Sem graça. E em algumas, a locução “em construção” é meramente um signo de esquecimento ou de abandono; não serão concluídas nunca; muitas nem sequer foram começadas...

Bom, falar de páginas da Internet é fácil, ainda mais quando se é um informata, meu caso; difícil é falar de mim mesmo. Porque, afinal, que credenciais eu tenho para falar sobre quem sou eu? Como se eu pudesse ter o dom da imparcialidade ao me descrever! Muito mais apropriado é descrever meus hábitos, citar do que gosto, discorrer sobre o que penso. Ou talvez já esteja, sem perceber, descrevendo uma característica minha.

O que sei, sobre mim, é que tenho aprendido muito. Não por estar numa nova faculdade, mas por estar vivendo de uma maneira mais lúcida. Isso não me impede de, vez por outra, cometer erros, imprudências e radicalismos, mas, na média, evita tais situações ou atenua seus efeitos. Mas que lucidez é essa?

Tive uma infância um tanto solitária, sendo filho caçula e temporão de uma família estabelecida mas, ao mesmo tempo, ausente. Por alguns motivos, fui uma criança muito insegura; achava-me – e realmente era – mais imaturo que meus colegas. Posso dizer que sentia mesmo vergonha da minha simples existência. Desejava muito fugir, desaparecer, começar tudo de novo. Foram anos bem complicados, aqueles.

Com a passagem para o segundo grau, mudei de escola. O ambiente novo era mais cosmopolita, pois possuía colegas de vários lugares e classes sociais distintas; os professores eram competentes e, na mesma medida, exigentes. De alguma forma vi uma possibilidade de construir uma nova imagem minha externa, mais forte. E isso foi fácil. Ganhei respeito, tornei-me uma liderança. Entretanto, alguma coisa, possivelmente interna, continuava errada. Seguidas vezes senti-me vazio, triste, só. Pior do que isso, dispensável. Como se eu tivesse uma carência infinita que jamais poderia ser sanada.

Quando vim finalmente morar em Porto Alegre, para fazer meu primeiro curso de graduação, dei um passo importante ao meu amadurecimento e à minha liberdade, mas trouxe comigo, ainda, essas questões não resolvidas. Tentei, então, encenar auto-suficiência. Isso foi desastroso, porque a confundi com desprezo e mesquinharia e acabei machucando e afastando pessoas de quem gostava muito.

Consegui ter uma reação quase imediata, como um raio que cai e ilumina a densa mata molhada pelo temporal. Percebi que as coisas e as pessoas, na grande maioria das vezes, eram mais simples e sinceras do que eu as imaginava. Percebi que minha desconfiança mostrava mais dos meus medos e da minha insegurança do que qualquer outra coisa. Infelizmente, esse momento iluminado aconteceu tarde demais para que fechasse todas as feridas abertas. Mas descobri a necessidade de ser transparente, de eliminar fingimentos, de parar de jogar. Com os outros, e principalmente, comigo.

Essa transparência me permitiu começar a entender minhas fraquezas, corrigir meus defeitos. Agora, aos trinta e dois anos, sinto-me mais aprendiz do que antes. Tenho aprendido a levar a vida de uma maneira positiva, tenho aprendido a não criar fantasmas na minha mente, aprendido a mudar. Mas é um longo trabalho, contínuo, cujo final eu não sei qual será, como será. Quando me vejo no espelho, posso me alegrar com as qualidades ou me entristecer com os defeitos. Mas nesse caso, não me desespero, porque vejo ali, no meio entre o coração e o cérebro, pendurada no pescoço, uma plaquinha dizendo “em construção”.

9 de jun. de 2006

Muito de nada

Se uma das conseqüências imediatas do mundo altamente tecnológico atual é a facilidade com que as informações são disponibilizadas e acessadas, outra – e não menos marcante – é a enorme quantidade de informações disponíveis. São elas não apenas sobre as tecnologias propriamente ditas, mas também sobre toda a ebulição cultural e consumista que vivenciamos. Conseguem os jovens acadêmicos lidar com tanta informação? Segundo a pesquisadora e educadora argentina Ana Teberosky, os universitários “lêem textos variados, mas não se aprofundam em nada, em nenhuma leitura. Lêem de modo superficial e fragmentário, como quem assiste à televisão.”
A primeira pergunta que se impõe é se é possível se aprofundar em todas as leituras. Muitas vezes, na formação do jovem estudante, as leituras devem ser ágeis, quase sem compromisso, para que ele consiga se manter informado sobre tudo o que está acontecendo ao seu redor. Além disso, vai ler e estudar com profundidade o que for do seu interesse ou necessidade, pois demandam emprego dos fatores tempo e empenho. Então, por limitação desses fatores, e pela quase infinidade de assuntos disponíveis, é fácil verificar que o resultado é uma leitura leve e descomprometida com a maioria dos temas.
A segunda questão, talvez o anverso da anterior, é se é necessário o aprofundamento. Para usar termos da moda, somos “bombardeados por torrentes de informações”. Vale dizer que nem todas são úteis; e também nem todas são confiáveis. Assim, a indústria de entretenimento produz fatos e notícias sobre esses fatos, numa escala recursiva e exaustiva. Os periódicos – jornais, revistas – avultam com seus colunistas, cronistas e resenhistas, nem todos qualificados como se desejaria, ou que nem sempre discorrem sobre temas importantes como se esperaria. Todos podem escrever sobre tudo, e se um dia foi dito que o papel aceitava qualquer coisa, hoje podemos dizer que tudo já foi aceito e está na Internet. A um estudante universitário, então, cabe a tarefa de ler e selecionar aquilo que acrescenta à sua formação; imergir no que lhe pode ser útil.
Não é tarefa fácil essa busca constante, verdadeira perscrutação inconsciente. Até porque também toma tempo e empenho, como que numa metaintelecção de texto. Talvez felizes tenham sido os cientistas e filólogos renascentistas, que podiam ler, estudar e concentrar em si todo o conhecimento disponível, verdadeiras enciclopédias vivas. Para os estudantes do mundo moderno, seria mesmo interessante que houvesse algo como um controle remoto para usar em textos, dando zoom nos que fossem bons ou interessantes, pulando os que não calham, e desligando o aparelho antes de lerem bobagens.

5 de jun. de 2006

Bichos Estranhos

Já faz tanto tempo que moro aqui no sítio que quase não lembro como era viver na rua. Embora aqui ainda venham carros e aqueles carros ainda maiores, que rosnam muito, é certamente bem mais tranqüilo. O que não vejo muito aqui são cavalos puxando carroças, e sempre pensei que em sítios houvesse tanto cavalos quanto carroças! De qualquer forma, gosto muito daqui: tenho grandes amigos, fiz muitas namoradas – e devo ter uma dúzia de filhotes espalhados por aí, se meu faro não me engana! Além disso, na parte alta do sítio, criam-se gatos que podemos caçar à vontade. É muito divertido!
Aqui no sítio há muitas casas. Muitas, e todas um tanto parecidas. Quase todas têm duas camadas de janelas e, para se chegar nas segundas camadas, há uma infinidade de escadarias e rampas de acesso. Claro, não posso falar em casas sem falar em pessoas. E em muitas pessoas! Aqui chegam e daqui vão muitas pessoas todos os dias, mas por incrível que pareça, acho que morar no sítio não mora nenhuma.
Reparei que as pessoas mudam com o passar do tempo, quero dizer, de cada época de calor para a seguinte, vejo focinhos novos e deixo de ver outros tantos. Uma coisa muito curiosa é que, em alguns dias da época quente, as pessoas com focinhos novos acabam sendo presas, amarradas, mudam até de cor; e as pessoas com focinhos conhecidos ficam ao redor, rosnando, latindo, jogando umas águas bem mal-cheirosas. Uns coitados ficam fedendo mais do que eu depois de pegar chuva! Ainda bem que isso não ocorre durante todo o tempo, porque alguns focinhos-novos parecem não gostar disso.
Pessoas são bichos estranhos mesmo. Às vezes parecem adorar nossa companhia, fazem cafuné na minha barriga, tentam latir comigo, mas eu não entendo o que tentam dizer. Outras vezes, nos enxotam, nos xingam, nos chutam. E isso acontece muito quando nos aproximamos das casas que cheiram à comida, onde realmente acho que fazem comida. Pelo menos, de vez em quando ganho um restinho bem gostoso.
Uma coisa engraçada nas pessoas é que machos e fêmeas são muito parecidos. Já tentei distingui-los pelo tamanho dos pêlos na cabeça, mas não dá certo, pois ambos podem ter pêlos longos ou curtos. Machos podem ter ou não penugem perto do focinho, mas nunca vi uma fêmea que a tivesse. Ah, acho que fêmeas tem latido mais esganiçado que os machos, mas nem sempre.
Outra esquisitice das pessoas é que elas estão sempre entrando nas casas e depois saindo delas. De tempo em tempo, matilhas inteiras de pessoas adentram, ficam paradas olhando para uma pessoa que fica latindo de pé, depois saem todas de novo. As pessoas não parecem gostar muito de aproveitar o gramado, de correr pelas rampas, de caçar gatos. Ficam lá, dentro das casas. Que tédio deve ser! Mas na época fria, pelo menos, temos algo em comum com as pessoas: elas também gostam de lagartear quando a bola quente aparece.
Mas fico mesmo espantado de como há pessoas que colocam gravetos com brasa na boca. São gravetinhos pequenos, bem claros, mas com uma brasa na ponta! E o que é pior, quando não tem brasa, as próprias pessoas fazem aparecer uma! Será que são loucas? Não sabem que brasa queima e faz mal? Eu nunca chego perto de nada com fogo ou brasa, e acho que aprendi isso com minha mãe. Outro dia, por sinal, vi um grupinho de pessoas numa das casas lá do canto do sítio; todas elas passavam o gravetinho com brasa umas para as outras. Era um gravetinho bem pequeno, diferente dos outros, e tinha um cheiro bem forte. E não é que, apesar disso, as pessoas davam latidos de alegria? Pessoas são mesmo bichos estranhos!