22 de ago. de 2006

Cortina de Fumaça

Essa fumaça que me engasga
e defuma teus pulmões
ressecou teu coração.
Também embaçou teu olhar,
e tornou teu sorriso amarelo.
Essa fumaça em pequenas doses,
repetidas freneticamente,
agora te esconde feito escudo.
Esconde mas não protege.
Proteger de quê?
Teu sorriso limpo,
teu olhar inocente,
tua palavra incauta
Aonde foram parar?
Teus sonhos engendrados,
teus castelos nefelibatas e
teus projetos sonhados
onde foste ocultar?
A máscara arrebatou o ator,
o escudo conquistou o guerreiro,
a fórmula tomou o engenheiro,
mas a lágrima não lavou a dor.
A dor incômoda de ser humano,
de ser frágil e incoerente,
de ser amado e ter medo de errar.
Agora queres fugir. Fugir de quem?
Assopra essa poeira,
limpa essa fuligem,
lava o rosto e levanta os olhos.
Sai detrás dessa cortina que te encobre
e volve ao teu lar amical.
Nós que aqui estamos
por ti esperamos!

31 de jul. de 2006

Despedida

Havia certa feita um rapaz, considerado por muitos como bom amigo e, que reciprocamente, os considerava assim também. Era decerto companhia agradável, pois tinha bom senso de humor, conversas quase sempre inteligentes, ânimo prestimoso e apetite por todos os quitutes e bebidas que as noites pândegas favoreciam. Segundo relatos de pessoas próximas, havia um único senão: um teimoso resíduo de melancolia, uma fenda de sensibilidade que, vez por outra, aflorava e transformava seu semblante, mesmo que contra sua própria vontade, num conflito interno de sintomas externos.

Essa tristeza era resultado de medos e complexos que, desde muito, conviviam dentro de si. Tentara já algumas vezes sufocá-los, enclausurá-los no porão de seu íntimo, esperando que desvanecessem por inanição ou esquecimento. Mas eles não desapareciam; apenas mostravam-se inertes atrás das máscaras que fabricara. Eis que, num momento incerto, esses sentimentos transbordaram de si e, atônito, viu-se encharcado deles, sentindo-se pateticamente fragilizado.

Tantas passaram a ser suas angústias, que resolveu se isolar. Não que não mais desejasse conviver entre seus amigos, mas sabia que não conseguiria ser uma companhia agradável, tão absorto que estava daquela tristeza. A alegria e a felicidade alheia lhe frustravam ainda mais, não por inveja, tampouco por despeito, mas por sentir-se incapaz de ter tal bem para si, incapaz de ser amado, inviável como ser humano.

Precisava de um tempo para si, para organizar seus pensamentos, seus sentimentos. Sabia que a solução de seus problemas sairia forçosamente de sua própria cabeça. E ainda que outrem pudesse lhe socorrer, não saberia como pedir auxílio. Decidiu então comunicar tal afastamento a seus amigos.

Escreveria um texto, que seria lhes seria remetido, ou então publicado. Nesse texto, redigido em terceira pessoa para parecer impessoal e, talvez, ficcionista, falaria dos sentimentos de um rapaz, atormentado por medos e complexos que lhe consomem a razão, e do intuito daquele em se afastar, por considerar-se incapaz de desfrutar da boa companhia dos amigos. Não havia determinado, entretanto, se esperaria por comentários ao seu texto, posto que vários outros textos havia feito sem terem recebido nem elogios, nem críticas; nem mesmo sabia se realmente haviam sido lidos. Então nutria essa dúvida, talvez semelhante àquela do leitor que, surpreso com a revelação, hesitava em comentar tal desconcerto.

24 de jul. de 2006

Xangri-lá

Devo confessar que, quando conheci Xangri-lá, não lhe dei o devido valor. Achei um lugar bonito, mas comum. Não percebi nenhuma exuberância e tampouco pensei que aquele lugar pudesse me acolher. Penso mesmo que a maioria das pessoas também tem essa reação morna em relação a uma primeira impressão.
Mas Xangri-lá vai se mostrando aos poucos. Talvez a primeira coisa que se perceba é sua constante harmonia; uma alegria simples, porém marcante, emana daquela terra. Característica inconfundível é a mania local por jogos, apostas, disputas. Quem nunca se deixou levar por uma inocente disputa e acabou pagando os tradicionais "cinco pulinhos para um lado, e cinco para o outro"?
Xangri-lá é unica e bela em sua forma, por seus costumes; tem uma preguiça provinciana mas prazeres cosmopolitas. Descortinada sua beleza imaterial, percebe-se que sua geografia também tem um raro esplendor. O sol brilha sempre, sem ofuscar, e aquece quem lá esteja. As outras formas, por vezes incomuns, formam um conjunto muito harmonioso.
Então, num segundo momento, fiquei completamente apaixonado por Xangri-lá. Achei que aquele lugar fosse minha vida; mais do que isso, queria Xangri-lá apenas para mim, num exagero equivocado de minha parte. Mas aprendi que o que eu desejava era impossível de ter, e que de outra forma, talvez melhor e mais duradoura, estávamos já fortemente ligados.
O povo dali tem uma auto-consciência impressionante, e a conversa com qualquer um de seus habitantes comprova uma profunda sabedoria, como se cada um carregasse em si toda a experiência pessoal possível, e a prudência de toda a humanidade. Os nativos são assim: apesar de poderem, às vezes, parecer desinteressados, aconselham e ouvem como poucos irmãos seriam capazes.
Hoje tenho um belo casarão bem no coração de Xangri-lá, onde busco o abrigo contra as inquietudes da vida. Em Xangri-lá encontro paz, alegria, amigos. Não nasci naquelas terras, mas é lá que fica minha casa. Em Xangri-lá, sinto o conforto e a segurança de um gato que adormece enrodilhado no travesseiro de seu querido dono.

22 de jul. de 2006

Cansaço

Quando meu corpo está cansado, procuro repouso para recuperar as forças. Normalmente uma boa noite de sono é suficientemente revigorante. Mas tenho sentido um outro tipo de cansaço, um que as noites de sono não resolvem. Talvez eu esteja com a alma cansada, e o sono torna-se uma fuga. Mas é uma fuga em vão, porque a cada manhã está tudo ali, de novo, para me cansar novamente.
Assim, me cansa uma família desestruturada, de pessoas teimosas, possessivas, chantagistas e que convivem numa situação instável e insustentável já há muitos anos. Elas formam uma espantosa e intricada rede de intrigas e interesses, sediada em um terreno que já chego a amaldiçoar, embora tenha crescido entre suas árvores. Para sustentar tal desiquilíbrio usam das forças dos familiares que, por compaixão ou por medo de sentirem remorso, ainda mantêm vínculos. De minha parte, cada vez menos afetivos.
Também me cansa ter um amor que, por impossível, tornou-se doentio e patético. Tentei dele me desvecilhar mas não obtive êxito. Queima ainda dentro de mim como uma úlcera debochada, e me consome com tristeza momentos que deveriam ser apenas de alegria. E também por ele joguei-me novamente à solidão, a desimportância, ao esquecimento. Esqueci-me de mim mesmo, e vejo meu corpo se alastrar a cada dia do meu fatigante sedentarismo; e isso também me cansa.
Estou cansado da inércia que deixei me possuir, da estagnação infrutífera que se tornou minha vida. Cansado de ver o tempo passar mas as coisas não mudarem. Cansado de correr em círculos, ainda que às vezes pareçam elipses. Estou cansado da minha ironia, das minhas palavras virulentas que ferem quem amo. Cansado dos meus queixumes, das minhas ladainhas, que tampouco para a riqueza literária se prestam. Estou cansado de mim.

21 de jul. de 2006

Silogismo

Premissas:
  1. A vontade de se presentear uma pessoa é diretamente proporcional ao amor que se tem por ela.
  2. A grandeza do abraço recebido é inversamente proporcional ao quadrado do valor do presente dado.
Corolário:
  • Quanto mais se gosta de um amigo, mais sem graça é o abraço recebido!
Latine scribere bonum est quod ignoti non intelligunt. Eia!

19 de jul. de 2006

Vulgare Lucae nomen, sed rarae atque summae sunt eius bonitas, sapientia fidesque. Ille inter omnes pulchrius est.

17 de jul. de 2006

Festas

Se as eleições são a festa da democracia, então as guerras são a festa da civilização.

12 de jul. de 2006

O Que Não Deve Ser Feito

Eu estava bem disposto a escrever um texto a respeito do Estatuto da Igualdade Racial, que está para ser votado no Congresso Nacional. Mas achei um excelente artigo de Antônio Carlos Prado, chamado "Qual é a sua cor?", publicado em Revista IstoÉ, que diz muito do que eu penso a respeito.
Mas mesmo assim resumirei em alguns tópicos os principais problemas que vejo nesse projeto:
  1. O Estatuto oficializa uma discriminação que lutamos há décadas e diariamente para não ter. Inclusive está na Constituição Federal que as pessoas não podem ser discriminadas por raça, cor, credo, etc.
  2. O Estatuto cria uma uma separação racial maniqueísta, superficial e irreal ao classificar as pessoas em "negros" e "não-negros". Ignora décadas (ou mais) de miscigenação e de entrosamento cultural que houve no país. Ignora inclusive que os africanos vieram de nações e etnias diferentes, falavam línguas diferentes e tinham religiões diferentes.
  3. Dessa forma, usa a prerrogativa da reparação histórica para impor sistema de cotas, com percentuais completamente arbitrários. Esses percentuais podem rapidamente passar de mínimos exigidos para máximos praticados, causando o efeito contrário ao desejado.
  4. Catapultar pessoas por sua cor, e não pela sua qualificação, é medida paliativa que não resolve os problemas sociais graves existentes, como a deficiência e escassez da educação pública.
  5. O Estatuto ignora que um dos grandes méritos da democracia brasileira foi lançar à pobreza também os brancos, oriundos principalmente do êxodo rural. A que destino estará fadado um branco, pobre, estudante do ensino público?
  6. O Estatuto ignora que a cultura afro-descendente já é amplamente divulgada e a base mais forte da cultura nacional. É impossível pensar o Brasil sem lembrar das várias influências artísticas e culturais de origem africana, que já dominam a preferência dos grandes meios de comunicação.
  7. O Estatuto cria oficialmente três castas no país: a dos que conseguem as coisas por mérito próprio; a dos que conseguem por ser beneficiado pelas cotas; a dos que não conseguem nada.
  8. Aliás, como pode se chamar de "Estatudo da Igualdade", se prevê justamente o oposto, que é discriminação e favorecimento?
  9. Enfim, está na hora dos homens públicos pensarem com responsabilidade nas questões sociais, como planejamento familiar e controle de natalidade, amplo acesso à educação pública, gratuita e de qualidade, saneamento e urbanização das favelas. O resto é demagogia pura e simples.

11 de jul. de 2006

Aldeia Global

Certa vez li num livro de História que a cultura egípcia sobrevivera a quase todas invasões, menos à cristianização. Os cristãos acabaram com todo o esplendor daquela ancestral cultura camito-semítica, preservando apenas a língua, então registrada com uma variante do alfabeto grego, ao que se costumou denominar copta. Depois veio a invasão árabe e o Islã, e por ironia do destino, foram os cristãos que preservaram a antiga língua egípcia na sua liturgia e em traduções da Bíblia. Foi graças ao conhecimento de copta que Champollion pôde decifrar a escrita hieroglífica da pedra de Rosetta.
Enfim, o Egito virou uma república árabe, na língua, na escrita e na religião. Os árabes, outro povo semita, espalharam sua cultura mundo afora, e ela foi sobretudo absorvida na África Setentrional. Apesar da invasão árabe em vastas áreas da europa, a sua língua não vingou, exceção feita à Malta. Lá se fala o maltês, uma derivação do árabe, mas escrito com alfabeto latino, talvez porque a população seja majoritariamente católica.
Já na Ásia, terra de povos muito antigos e culturas muito bem arraigadas, a religião e a escrita venceram, mas não a língua. É o caso do Irã, país onde se fala persa, escrito agora com as letras escorridas importadas do árabe. Os persas, povo indo-europeu muito antigo, rezam agora voltados para Meca. O persa, por sinal, é uma língua próxima do urdu, também escrito com alfabeto árabe, língua oficial do Paquistão, que como sabemos, também é um país muçulmano. O interessante é que o urdu é praticamente a mesma língua que o hindi, língua oficial da Índia. Motivos religosos fizeram o primeiro ser influenciado pelo árabe e o persa, e o segundo pelo sânscrito, língua clássica e sagrada do bramanismo, principal religião dos indianos. Por sinal, a maioria das línguas faladas na Índia usam a escrita chamada devanagári, inclusive o próprio hindi.
Os turcos, por sua vez, são originários de tribos altaicas, parentes dos mongóis. Convertidos ao islamismo, já escreveram usando o alfabeto árabe, mas hoje o fazem com o romano. Assim como a maioria das repúblicas turcomanas da Ásia Central, embora algumas ainda usem o cirílico, resquício da época sob influência russa. Mesma influência que ainda justifica a escrita cirílica usada para o mongol.
A Rússia, sede de um dos patricarcados ortodoxos, é um país de maioria eslava. Os eslavos também são outro grupo indo-europeu. De uma forma geral, usam o cirílico quando são ortodoxos, e o romano quando são católicos. Assim, na Sérvia a língua que é escrita ao jeito de Moscou, na Croácia é escrita à moda de Roma. Aliás, as ex-repúblicas da Iugoslávia formam uma sopa étnico-religiosa muito peculiar.
Alheios a toda essa suruba cultural que virou o Velho Mundo, os nossos índios foram catequizados e viram suas culturas suplantadas pelo português crioulo do Brasil. Desprovidos de sua identidade, já foram vítimas de tentativas de escravização e de extinção. Agora vivem sob a política oficial de preservação, embora seja discutível o que se deseja preservar, pois são dependentes de uma sociedade que os coloca à sua margem. Hoje estão aí, vendendo cestinhos nas feiras, ou morrendo de tédio e cirrose alcoólica.

7 de jul. de 2006

Sufixos

Acho que um corredor de ônibus deveria ser um corredouro, a exemplo de bebedouro.
E acho que algo duradouro deveria ser durador, a exemplo de desolador.
Assim, seria mais lógico. E eu não me irritaria com essas coisas!

29 de jun. de 2006

Página em construção

Acho muito engraçado quando entramos em alguma página da Internet em busca de alguma informação e encontramos apenas um “Página em Construção”. Ela está lá, tem nome, ocupa espaço, mas ao mesmo tempo é vazia, não tem informação. Significa apenas que não é, mas que pretende ser. Às vezes, encontrar uma página dessas pode ser frustrante: ela pode ter sido bem indicada, ter tido uma boa referência, mas por algum motivo está lá, parada, estática. Sem graça. E em algumas, a locução “em construção” é meramente um signo de esquecimento ou de abandono; não serão concluídas nunca; muitas nem sequer foram começadas...

Bom, falar de páginas da Internet é fácil, ainda mais quando se é um informata, meu caso; difícil é falar de mim mesmo. Porque, afinal, que credenciais eu tenho para falar sobre quem sou eu? Como se eu pudesse ter o dom da imparcialidade ao me descrever! Muito mais apropriado é descrever meus hábitos, citar do que gosto, discorrer sobre o que penso. Ou talvez já esteja, sem perceber, descrevendo uma característica minha.

O que sei, sobre mim, é que tenho aprendido muito. Não por estar numa nova faculdade, mas por estar vivendo de uma maneira mais lúcida. Isso não me impede de, vez por outra, cometer erros, imprudências e radicalismos, mas, na média, evita tais situações ou atenua seus efeitos. Mas que lucidez é essa?

Tive uma infância um tanto solitária, sendo filho caçula e temporão de uma família estabelecida mas, ao mesmo tempo, ausente. Por alguns motivos, fui uma criança muito insegura; achava-me – e realmente era – mais imaturo que meus colegas. Posso dizer que sentia mesmo vergonha da minha simples existência. Desejava muito fugir, desaparecer, começar tudo de novo. Foram anos bem complicados, aqueles.

Com a passagem para o segundo grau, mudei de escola. O ambiente novo era mais cosmopolita, pois possuía colegas de vários lugares e classes sociais distintas; os professores eram competentes e, na mesma medida, exigentes. De alguma forma vi uma possibilidade de construir uma nova imagem minha externa, mais forte. E isso foi fácil. Ganhei respeito, tornei-me uma liderança. Entretanto, alguma coisa, possivelmente interna, continuava errada. Seguidas vezes senti-me vazio, triste, só. Pior do que isso, dispensável. Como se eu tivesse uma carência infinita que jamais poderia ser sanada.

Quando vim finalmente morar em Porto Alegre, para fazer meu primeiro curso de graduação, dei um passo importante ao meu amadurecimento e à minha liberdade, mas trouxe comigo, ainda, essas questões não resolvidas. Tentei, então, encenar auto-suficiência. Isso foi desastroso, porque a confundi com desprezo e mesquinharia e acabei machucando e afastando pessoas de quem gostava muito.

Consegui ter uma reação quase imediata, como um raio que cai e ilumina a densa mata molhada pelo temporal. Percebi que as coisas e as pessoas, na grande maioria das vezes, eram mais simples e sinceras do que eu as imaginava. Percebi que minha desconfiança mostrava mais dos meus medos e da minha insegurança do que qualquer outra coisa. Infelizmente, esse momento iluminado aconteceu tarde demais para que fechasse todas as feridas abertas. Mas descobri a necessidade de ser transparente, de eliminar fingimentos, de parar de jogar. Com os outros, e principalmente, comigo.

Essa transparência me permitiu começar a entender minhas fraquezas, corrigir meus defeitos. Agora, aos trinta e dois anos, sinto-me mais aprendiz do que antes. Tenho aprendido a levar a vida de uma maneira positiva, tenho aprendido a não criar fantasmas na minha mente, aprendido a mudar. Mas é um longo trabalho, contínuo, cujo final eu não sei qual será, como será. Quando me vejo no espelho, posso me alegrar com as qualidades ou me entristecer com os defeitos. Mas nesse caso, não me desespero, porque vejo ali, no meio entre o coração e o cérebro, pendurada no pescoço, uma plaquinha dizendo “em construção”.

21 de jun. de 2006

Confissão

Quando eu era criança, fui uma vez a um restaurante muito chique com meus tios. Pedimos um filé à parmegiana. Fiquei impressionado com tanta carne, mas decepcionado com o recheio: dentro havia algo amarelo e derretido, que pensei obviamente tratar-se da gordura da carne. Achei nojento servirem uma carne assim, ainda mais com a gordura camuflada como recheio.
Tratei de raspar aquela porcaria fora, e pude me deleitar com aquele suculento e bem temperado pedaço de carne. O restaurante podia ser chique, mas a mim não enganariam! Deixei aquela coisa sebosa no prato, como testemunho da minha indignação.

14 de jun. de 2006

Verbos

Não é que eu não goste do buscar,
do encontrar,
do achar,
do pegar,
ou do largar;
eu só não conheço o Catar!

12 de jun. de 2006

Um Barco Sobre O Oceano

Aquele barco já tinha alguns anos de idade. Seu motor continuava bom, porém o casco inevitavelmente envelhecia, e começavam a surgir marcas de ferrugem aqui e ali.
Apesar disso, o barco prosseguia seu cotidiano, indo e vindo conforme os planos de viagens que lhe estabeleciam. Freqüentemente participava de regatas e, estando entre seus semelhantes, sentia-se bem e confortado. Os encontros festivos mantinham-no motivado; exceto as procissões, das quais não gostava mesmo de participar. Nisso era diferente dos demais, pelo menos da maioria. Tinha plena convicção de não fora construído para fazer procissões!
Com o passar dos anos, o barco voltava cada vez menos ao seu estaleiro. Sentia uma leve melancolia por isso, mas as mudanças vindas com tempo eram imperdoáveis e o estaleiro já não o comportava bem como antes. Mas julgava que isso era superável, pois tinha várias certezas, entre as quais a de que não estava só.
Entretanto, os pensamentos também mudariam com o tempo. Um dia, percebeu-se só, em pleno oceano. Viu que não havia ninguém ao seu lado. E ao mesmo tempo que obedecia ao itinerário de cada viagem, sentia-se à deriva na própria vida. As certezas que tinha esquivaram-se furtivamente, e percebeu então, de súbito, que o oceano não era apenas infinito e vazio ao seu entorno, mas também profundo e frio abaixo de si. Então, começou a imergir.

9 de jun. de 2006

Amicus certus in re incerta cernitur.

Muito de nada

Se uma das conseqüências imediatas do mundo altamente tecnológico atual é a facilidade com que as informações são disponibilizadas e acessadas, outra – e não menos marcante – é a enorme quantidade de informações disponíveis. São elas não apenas sobre as tecnologias propriamente ditas, mas também sobre toda a ebulição cultural e consumista que vivenciamos. Conseguem os jovens acadêmicos lidar com tanta informação? Segundo a pesquisadora e educadora argentina Ana Teberosky, os universitários “lêem textos variados, mas não se aprofundam em nada, em nenhuma leitura. Lêem de modo superficial e fragmentário, como quem assiste à televisão.”
A primeira pergunta que se impõe é se é possível se aprofundar em todas as leituras. Muitas vezes, na formação do jovem estudante, as leituras devem ser ágeis, quase sem compromisso, para que ele consiga se manter informado sobre tudo o que está acontecendo ao seu redor. Além disso, vai ler e estudar com profundidade o que for do seu interesse ou necessidade, pois demandam emprego dos fatores tempo e empenho. Então, por limitação desses fatores, e pela quase infinidade de assuntos disponíveis, é fácil verificar que o resultado é uma leitura leve e descomprometida com a maioria dos temas.
A segunda questão, talvez o anverso da anterior, é se é necessário o aprofundamento. Para usar termos da moda, somos “bombardeados por torrentes de informações”. Vale dizer que nem todas são úteis; e também nem todas são confiáveis. Assim, a indústria de entretenimento produz fatos e notícias sobre esses fatos, numa escala recursiva e exaustiva. Os periódicos – jornais, revistas – avultam com seus colunistas, cronistas e resenhistas, nem todos qualificados como se desejaria, ou que nem sempre discorrem sobre temas importantes como se esperaria. Todos podem escrever sobre tudo, e se um dia foi dito que o papel aceitava qualquer coisa, hoje podemos dizer que tudo já foi aceito e está na Internet. A um estudante universitário, então, cabe a tarefa de ler e selecionar aquilo que acrescenta à sua formação; imergir no que lhe pode ser útil.
Não é tarefa fácil essa busca constante, verdadeira perscrutação inconsciente. Até porque também toma tempo e empenho, como que numa metaintelecção de texto. Talvez felizes tenham sido os cientistas e filólogos renascentistas, que podiam ler, estudar e concentrar em si todo o conhecimento disponível, verdadeiras enciclopédias vivas. Para os estudantes do mundo moderno, seria mesmo interessante que houvesse algo como um controle remoto para usar em textos, dando zoom nos que fossem bons ou interessantes, pulando os que não calham, e desligando o aparelho antes de lerem bobagens.

5 de jun. de 2006

Bichos Estranhos

Já faz tanto tempo que moro aqui no sítio que quase não lembro como era viver na rua. Embora aqui ainda venham carros e aqueles carros ainda maiores, que rosnam muito, é certamente bem mais tranqüilo. O que não vejo muito aqui são cavalos puxando carroças, e sempre pensei que em sítios houvesse tanto cavalos quanto carroças! De qualquer forma, gosto muito daqui: tenho grandes amigos, fiz muitas namoradas – e devo ter uma dúzia de filhotes espalhados por aí, se meu faro não me engana! Além disso, na parte alta do sítio, criam-se gatos que podemos caçar à vontade. É muito divertido!
Aqui no sítio há muitas casas. Muitas, e todas um tanto parecidas. Quase todas têm duas camadas de janelas e, para se chegar nas segundas camadas, há uma infinidade de escadarias e rampas de acesso. Claro, não posso falar em casas sem falar em pessoas. E em muitas pessoas! Aqui chegam e daqui vão muitas pessoas todos os dias, mas por incrível que pareça, acho que morar no sítio não mora nenhuma.
Reparei que as pessoas mudam com o passar do tempo, quero dizer, de cada época de calor para a seguinte, vejo focinhos novos e deixo de ver outros tantos. Uma coisa muito curiosa é que, em alguns dias da época quente, as pessoas com focinhos novos acabam sendo presas, amarradas, mudam até de cor; e as pessoas com focinhos conhecidos ficam ao redor, rosnando, latindo, jogando umas águas bem mal-cheirosas. Uns coitados ficam fedendo mais do que eu depois de pegar chuva! Ainda bem que isso não ocorre durante todo o tempo, porque alguns focinhos-novos parecem não gostar disso.
Pessoas são bichos estranhos mesmo. Às vezes parecem adorar nossa companhia, fazem cafuné na minha barriga, tentam latir comigo, mas eu não entendo o que tentam dizer. Outras vezes, nos enxotam, nos xingam, nos chutam. E isso acontece muito quando nos aproximamos das casas que cheiram à comida, onde realmente acho que fazem comida. Pelo menos, de vez em quando ganho um restinho bem gostoso.
Uma coisa engraçada nas pessoas é que machos e fêmeas são muito parecidos. Já tentei distingui-los pelo tamanho dos pêlos na cabeça, mas não dá certo, pois ambos podem ter pêlos longos ou curtos. Machos podem ter ou não penugem perto do focinho, mas nunca vi uma fêmea que a tivesse. Ah, acho que fêmeas tem latido mais esganiçado que os machos, mas nem sempre.
Outra esquisitice das pessoas é que elas estão sempre entrando nas casas e depois saindo delas. De tempo em tempo, matilhas inteiras de pessoas adentram, ficam paradas olhando para uma pessoa que fica latindo de pé, depois saem todas de novo. As pessoas não parecem gostar muito de aproveitar o gramado, de correr pelas rampas, de caçar gatos. Ficam lá, dentro das casas. Que tédio deve ser! Mas na época fria, pelo menos, temos algo em comum com as pessoas: elas também gostam de lagartear quando a bola quente aparece.
Mas fico mesmo espantado de como há pessoas que colocam gravetos com brasa na boca. São gravetinhos pequenos, bem claros, mas com uma brasa na ponta! E o que é pior, quando não tem brasa, as próprias pessoas fazem aparecer uma! Será que são loucas? Não sabem que brasa queima e faz mal? Eu nunca chego perto de nada com fogo ou brasa, e acho que aprendi isso com minha mãe. Outro dia, por sinal, vi um grupinho de pessoas numa das casas lá do canto do sítio; todas elas passavam o gravetinho com brasa umas para as outras. Era um gravetinho bem pequeno, diferente dos outros, e tinha um cheiro bem forte. E não é que, apesar disso, as pessoas davam latidos de alegria? Pessoas são mesmo bichos estranhos!

2 de jun. de 2006

A Fúria da Gorda

Ainda me impressiono com a face oculta da amabilidade exagerada de certas pessoas. Pessoas dóceis, simpáticas, sociáveis e pacatas podem esconder sentimentos represados, desejos descabidos, energias desmedidas. Tudo do que precisam é um estopim, um momento oportuno e um motivo convincente para extravasar toda a concupiscência telúrica e mundana que não cabe mais em si. E isso ainda é mais forte, mais grave quando falamos de gordinhas, pois são retentoras potenciais de muito mais emoções veladas do que pessoas comuns.

Pois assim começou tudo. Vi Matheus conversando com a dócil moça, que parecia transitar muito bem entre os diversos grupos formados durante a noite. Fui até eles e integrei-me. Momentos depois estávamos somente ela e eu conversando. Percebi que tratava-se de alguém absorvente e aderente, daquelas que são capazes de sorver toda a atenção de uma pessoa a menos que sejam objetivamente dispensadas. Por esse motivo, evitei, durante toda a noite, dar atenção demasiada ou ainda permanecer só em companhia da avultada rapariga.

Assim, a noite foi passando. Não mais a interpelei diretamente, e notava apenas suas idas e vindas para cá e para lá. Nesses momentos sempre estava acompanhada de uma latinha de cerveja. Agora que os fatos passaram, a lucidez da distância temporal permite pensar e as emoções não mais gritam em meu peito, creio terem sido várias latinhas sucessivas.

Bom, voltei a perceber a Márcia – este era seu nome – quando já transtornada pela bebida e em incipiente ebulição de sentimentos, começara a praguejar contra Vasco por seu suposto descaso com a namorada, mortificada por leve embriaguez. E foi novamente com Vasco que se fez notar, desta vez fitando-o com olhares de fogo faiscante e ira repressora, após o menino-lobo tecer mais uma de suas metáforas escatológicas. Nesse momento meu olhar mirou ao infinito, porque a reprimenda ultrapassava qualquer limite de sanidade.

Depois disso os fatos sucederam-se numa avalanche caótica de terror violento. Fui aquecer-me junto à lareira, e vi que Márcia prontamente seguiu-me. Fingi-me adormecido no sofá, para que não travasse conversa com ela; cambaleou enquanto tentava acrescer folhas de jornal às toras abrasadas. Adormeci. Acordei com uma latinha gelada de cerveja nas minhas costas, arremessada pelo Vasco. Adormeci novamente; acordei agora com várias pessoas no entorno: Christian balbuciando coisas; Vasco não sei onde; Matheus e Márcia no sofá. “Napalm Death!” Matheus inclina-se para a frente, rindo (ele sempre ri, mas somente se inclina quando já está um tanto zonzo). Cerveja escorre sobre seu pescoço e cai no chão. Daniel passa e vê a cena de relance. Saímos para a churrasqueira.

Sucedem um pedido fogoso de desculpa, por parte da agressora, e a percepção, em Daniel, que Matheus vomitara em sua sala. Márcia cerca Matheus por todos os lados, “ela vem daqui, ela vem de lá”. Matheus senta-se e ri; Vasco e eu achamos que ele sucumbira aos seus fartos encantamentos.
Ela desaparece. Matheus suplica nossa ajuda e companhia. Decidimos ir aos potreiros, desbravar as matas e fugir da moça. Matheus, Daniel, Vasco e eu pegamos a fálica lanterna e embrenhamo-nos nos pastos do minifúndio. Ela vem. Ela nos segue. Ela pára na cerca. Paramos também. Uma paz breve toma nossas mentes. Focamo-la com a lanterna; está a rondar a cerca, como um cão de guarda nas portas do inferno. Deita-se. Fica escorada na cerca em posição obscena. Desaparece. Entra na casa. A luz do banheiro é acendida. No interior da casa, ouvem-se gemidos.

Foi com pavor repentino que notamos a luz do banheiro ser apagada. E ela volta. Sai para a área da churrasqueira, vem para a cerca. Pula a cerca. Corremos. Ela solta gritos ininteligíveis. Grunhidos. Uivos. Bate com as mãos em seus peitos saltitantes. Sacode os braços como se fossem asas. Ela percorre os prados em um trajeto desconexo, mas é fácil perceber que vem a nossa direção. Corremos. Corujas piam funestamente, como anunciando o pior. E ela continua vindo; tem o dom de enxergar na escuridão da noite. Continua correndo, grasnando, relinchando, gloterando.
Descemos a colina, em busca de algum lugar que sua visão não alcance. Ela some. Matheus volta um pouco colina acima, próximo da segunda cerca que puláramos. O pobre volta correndo apavorado: “Ela está vindo!”. Vamos mais adiante. Ela aproxima-se e convida com veemência para que adentremos no capão que está próximo. Negamos e decidimos voltar. A incansável Márcia vem atrás: “Voltem, galinhas! Vamos para o mato!” O sol já está nascendo; ela há de perder suas forças.
Quando chegamos à casa, uma sinistra névoa ainda cobria os vales a leste. Pensamos estar seguros na casa. Será que encontraríamos alguém vivo na casa? Ou ela teria matado um por um, em uma fúria punitiva?

Mais uma vez, lá vem ela. Ela vem. Aproxima-se. Decidimos subir no telhado da casa, pois Matheus a escutara confessando seu medo de altura. Ah, sábia decisão! Ali estaríamos ilhados, a espera de um helicóptero que viesse nos resgatar, mas estaríamos totalmente salvos daquele boitatá loiro que nos seguia.

Mas um dos efeitos interessantes do álcool no corpo humano é a perda gradativa das noções, dos limites, dos medos. Isso foi sobremaneira verdadeiro na gorda da cerca: ela subiu com determinação e velocidade no telhado da casa e, sem parecer ter qualquer vestígio de acrofobia. E numa tentativa de dança do acasalamento, correu atrás de Matheus circulando a clarabóia da casa. Resolvemos então, descer. Ela tentou subir na caixa d’água, mas devido às suas generosas formas não logrou alcançar o topo; ficou suspensa, com suas perninhas a balançar pelo vento da manhã. Era uma visão dantesca. Daniel, com razão, temeu por atos insensatos. Digo, por atos muito mais insensatos. Foi então resgatar a moça; levou-a para dentro da casa e a colocou a dormir.

O sol aquecia nossos rostos. Reunimo-nos em frente à bancada da churrasqueira. Sentei na própria bancada e via o sol descortinar o vale antes encoberto pela névoa matinal. Havia um certo clima de tranqüilidade.

Mas eis que ouço o ruído da porta a se abrir; sons próximos da mesa atrás de mim. Temo virar o rosto e olhar; segue-se um silêncio aterrador. Viro o rosto, apenas para confirmar que ela já entrara. Não. Ela está sentada atrás de mim, quase grudada ao meu corpo. O susto faz-me voar. Espatifar-me-ia no chão, não fosse o aparo providencial de Matheus. Começo a rir; nada faz mais sentido. Que o chão me engula e as árvores sequem. É um circo!


“Cuidado com a gorda,
que a gorda te pega.
Te pega daqui,
Te pega de lá.”