5 de abr. de 2013

Por que sou ateu

Lembro ter ganhado uma "Bíblia para Crianças" da professora da 2ª série. O livro era bonitinho e, mesmo que eu não procurasse conforto na sua história, ela me parecia ser verdadeira. Bem antiga, mas verdadeira; contava como o mundo surgiu e era o que era. Acho que foi o primeiro contato com Bíblia que tive. O lado paterno da minha família é luterano; o materno, católico. Lá perto da época da catequese e da 1ª comunhão, descobri que havia versões diferentes da Bíblia: a dos católicos e a dos evangélicos. "Como assim, versões diferentes? Não é a história do mundo, a palavra de deus?" eu pensei. Fiquei mais confuso ainda quando descobri que os próprios 10 mandamentos, o cerne condutor da moral cristã, também tinha versões. Como podia aquilo? Dez ordens dadas diretamente por deus... e cada grupo tinha uma versão diferente! Bom, alguém deve ter comentado que 'os homens deturparam' a Bíblia através do tempo. Mas, então, como eu saberia qual a mais fiel? Qual a mais certa? Nessa época, comecei a desacreditar na Bíblia como livro divino, aceitando, no máximo, inspiração divina.

Eu ia à escola, e na escola aprendia coisas várias que faziam muito sentido na vida e no mundo que eu via ao meu redor. Em Estudos Sociais, Matemática, Português. Lá pela 7ª série, quando começaram as aulas de História Geral e de Geografia do Mundo, comecei a montar um quebra-cabeças na minha mente, um que eu nem sabia existir, mas que agora estava lá, posto, com as peças encaixando e fazendo todo o sentido. Descobri que havia outras religiões; que praticamente todo povo inventava sua própria. Descobri que havia uma linha evolutiva entre animismo, politeísmo, diteísmo, monoteísmo... Histórias bíblicas começaram a fazer tanto sentido para mim quanto as da mitologia grega ou egípcia. Eram histórias, fábulas. Perguntava por que um camponês do Nepal seria condenado ao inferno por não ser cristão, se provavelmente ele nunca teria sequer ouvido falar sobre Cristo em toda sua vida. Assim como boa parte daqueles que não são cristãos. Não fazia sentido algum e pensei, como aquela piada que circula pela Internet, se mais de uma religião condena seus não adeptos ao inferno (e pelo menos cristianismo e islamismo fazem isso), e ninguém pertence a mais de uma religião ao mesmo tempo, então toda a humanidade morrerá no fogo do inferno!

Nessa época, deixei de levar o cristianismo a sério. Passou a ser mais uma doutrina, com seus adeptos, não mais importante que maoísmo, mercantilismo, feudalismo, socialismo. Não era algo que embutia uma verdade divina ou qualquer outra prerrogativa inquestionável. Ao contrário, eu enxergava um paradoxo fundamental: os cristãos adotaram o mesmo deus dos judeus, autoproclamados o povo escolhido e que, no entanto, ignoravam totalmente a vinda de Cristo. Como se resolve esse impasse? "O meu deus é o deus de Israel, dos judeus; Cristo é seu filho, mas o povo escolhido por ele não admite isso!" É muita incoerência numa única doutrina! Os árabes foram mais espertos; pegaram o mesmo deus, mas numa versão 2.0: o deus dos muçulmanos não é muito gentil com judeus e cristãos.

Passei um tempo sendo um teísta sem religião, o que me permitia ser um tanto ecumênico: podia conversar com qualquer pessoa a respeito da vida, do universo e de tudo o mais sem que suas confissões atacassem qualquer crença minha, pois eu não tinha mais crenças. Alguém me dizer que acreditava na religião A ou B era tão relevante quanto dizer que era sócio da Ginástica ou do Aliança, ou que votava no PDS ou no PMDB. Questões puramente pessoais, visões de mundo, nada especial. Ainda imaginava, entretanto, existir um criador, um ser superior. Imaginava, mas não sentia.

Com o tempo, e vendo as mazelas do mundo, e a diversidade das coisas e das criaturas no mundo, e como todas os efeitos têm suas causas, ainda que não consigamos explicar todas, comecei a duvidar que existisse esse criador supremo. Como também não o sentia, achei por bem me declarar de acordo com meu pensamento: eu era ateu. Passei a acreditar somente no que eu via, no que era comprovável. Bom, eu não vejo vírus e bactérias, mas sei que existem, porque pessoas mais estudadas e com os instrumentos adequados conseguem ver e mostrar que existem. Conseguem fazer testes. Repetir experimentos. Nada disso a religião conseguia fazer comigo, nada que não me exigisse "transcender" a razão.

Naquele momento me senti um iluminado. Imaginei ser imune a enganações. Senti como se eu e os ateus em geral tivéssemos uma visão mais clara, mais inteligente, do mundo. Passei a dividir a humanidade em duas classes: pessoas inteligentes, como eu e os demais ateus, e pessoas burras, subjugadas por baboseiras de alguma religião das várias que existem. Eu classificava todo mundo dessa maneira e admito que tinha internamente um certo deboche, preconceito, contra quem professasse alguma fé. Mesmo pessoas que eu amava e admirava eram jogadas na vala mental dos "burros". Confesso que comecei a ficar um tanto pedante e intolerante nessa época. Até que senti na pele o preconceito por ser ateu. Uma colega do trabalho certa vez me disse: "Puxa, mas deve ser tão triste não acreditar em nada!" Ao que respondi que acreditava nas pessoas, nas relações. Ela completou dizendo: "Nunca pensei que um ateu pudesse ser legal." Naquele momento me dei conta de que a classificação que eu fazia era preconceituosa, burra, inútil e injusta. Talvez haja algum gene que favoreça algumas pessoas a ter fé. Não sei. Mas isso não desmerece quem são. Não desmerece, nem abona. As pessoas são o que são, o que fazem. Se querem acreditar em gnomos ou qualquer outra coisa, que o façam. Eu não tenho nada a ver com isso.

Então esse sou eu. Como digo, o verbo "ser" do português é muito forte; ele dá um sentido de permanência, de eternidade, que nada no universo tem. É mais correto dizer "este estou eu". Eu estou ateu. Se, algum dia, alguém conseguir me provar a existência de um deus, então não vejo por que não aceitá-la. Até lá, estarei ateu. Como estou ateu, não quero convencer ninguém sobre isso. Não quero converter pessoas crente em ateias, nem dizer que não terão salvação ou que estão perdendo seu tempo de vida com bobagem. Como se eu não perdesse tempo da minha com outras bobagens. Juro, não quero converter ninguém. Quero seguir minha vida de pacato cidadão, pagando meus impostos, amando meus amigos e me divertindo com eles, fazendo-os felizes e tratando bem e com respeito quem está ao meu redor.

E espero, exijo, ser tratado com respeito também. Não quero pessoas apontando o dedo para mim e dizendo que peco, que blasfemo, que isso e que aquilo. Quem tem envergadura moral para dizer qualquer coisa sobre mim ou sobre qualquer outra pessoa? Não quero ser obrigado a frequentar lugares públicos que tenham símbolos religiosos. Não quero que as leis do meu país sejam orientadas por esta ou aquela religião, porque eu não tenho religião alguma. E muita gente também não tem. Não quero ver menções a religião no dinheiro que uso. Então fico realmente contrariado quando vejos grupos tentando se apoderar do congresso para enfiar goela abaixo (dos outros) as suas convicções religiosas. Será que gostariam de um deputado babalorixá na Comissão de Direitos Humanos? Ou da Bancada Xiita negociando favores com o governo federal? Só um estado laico respeita todos e tem lugar para todos - principalmente para os que tem e se importam com religião. Estados teocráticos perseguem e ofendem quem não reza a mesma cartilha. Respeitar o outro não é apenas deixar de agredi-lo física ou verbalmente. Respeitar é deixar que viva em paz, com seus valores, sem tentar impor os próprios valores e crenças.

Por favor, cristãos, vivam suas vidas e deixem-nos viver as nossas!

8 de dez. de 2010

Por que eu prefiro o Orkut

Prefiro o Orkut - e o "antigo" Orkut - porque ele é uma rede de contatos. Ele é prático e funcional para o que se destina: objetivamente, manter contato com amigos; reencontrar amigos; ver atualizações significativas de amigos, como novas fotos ou vídeos, ou alterações no perfil. Ele tem as ferramentas para agenda de eventos, tem vários níveis de privacidade e era isso.

Já o Facebook é, para mim, uma mistura de Twitter e Orkut e é direcionado para o pior dessa união. Não é uma rede de contatos, mas uma rede de fofocas. "Fulano pensou tal coisa e beltrano curtiu isso." A página principal é configurada e minada por essas futilidades, que são bonitinhas, que são engraçadinhas, ou podem ser irônicas, ou até polêmicas, mas que sempre chamam a atenção e que não agregam coisa alguma para ninguém. O Facebook é direcionado ao microcelebridadetismo - sendo essa uma palavra que acabei de cunhar mas que denota bem certo anseio de paparicação virtual, ou seja, necessidade de chamar a atenção.

Ele desvirtua a conversa ou a simples troca de opiniões e ideias entre amigos porque, por padrão, torna isso público - e é em cima dessa publicidade forçada que reside a sua razão de ser. As pessoas preferem o Facebook porque ele é mais interativo, mesmo que essa interatividade toda seja em cima de uma colossal listagem de futilidades. Não importa que sua interface seja poluída e confusa - ele é mais dinâmico que o Orkut.

Mas se eu não gosto do Facebook, por que tenho conta lá? Bom, porque muitos amigos estão abandonando o Orkut. "Ah, Orkut só se usa no Brasil. Nos EUA, todo mundo usa Facebook!". Como quero manter contato com algumas dessas pessoas, eis minha conta feicibuquiana. Mas não é sem protesto. Quero lembrar que o MSN virou moda e solapou o
ICQ, mesmo sendo muito inferior à época e, ainda hoje, não tendo todas as funcionalidades que o velho programa da florzinha tinha. Ainda tenho minha conta no ICQ, mas que contatos vou encontrar lá?

12 de nov. de 2010

Pedofilia

Singrando em diagonal entre casas brancas
O bispo excitado chegou ao alvo do seu desejo
E comeu o pequeno peão que se lhe insinuava.
Extasiado, olhou para o rei inimigo e balbuciou:
- Xeque-mate!

10 de nov. de 2010

A Saga de Carina

Carina nasceu nos arredores de Moscou logo no início do século XX. Aderiu com furor à revolução russa de 1917 e, nos anos seguintes, engajou-se na implantação dos sovietes locais. Na juventude, não primava pela beleza: era magricela e tinha um nariz proeminente, que intimidava seus interlocutores. Logo percebeu que isso podia ter uma vantagem na política: adorava meter-se em celeumas e, mesmo sem embasamento, ganhava as discussões pelo desconforto que causava a sua aparência. E fazia uso disso com frequência, já que não tinha grande capacidade cognitiva para fazer a leitura e intelecção de textos longos; geralmente se apegava a uma ou outra frase, distorcia e retorcia à sua conveniência, e já saía panfleteando e buscando novas controvérsias.



Em 1918, com a transferência do «Pravda» para Moscou, conseguiu emprego na gráfica daquele jornal. Naquele mesmo ano, encontrou uma nova motivação para sua vida: a reforma ortográfica da língua russa. Comprou a mais recente edição do «Novo Vocabulário Ortográfico da Língua Russa» e do «Grande Dicionário Patriótico Russev da Língua Russa» e começou a devorá-los com sofreguidão doentia. Era quase capaz de saber todas as entradas que os dicionários registravam. Mais do que isso, sabia aquelas que neles não havia e que, portanto, no seu peculiar ponto de vista, eram palavras proibidas, invenções de pequenos burgueses.

Mas Carina tinha um problema: ao mesmo tempo que idolatrava os principais dicionários da língua, ela não sabia ao certo como usá-los. Acontece que, na língua russa, várias palavras femininas são muito parecidas com as masculinas, exceto pela terminação. Por exemplo, "costureira" é o feminino de "costureiro". Esse tipo de regra de formação do feminino é chamada de "formação natural do feminino". Esquisitices da língua russa. Outro problema, que fugia à compreensão limitada da abnegada Carina, é que os dicionários russos (da época) costumavam registrar somente as formas masculinas das palavras com formação natural do feminino. Assim, nos dicionários aparecia «sapateiro», mas não «sapateira». Assim também com "bombeiro", "mineiro", "sineiro", "seringueiro". Esquisitices dos dicionários russos.

Para ela, contudo, isso era motivo suficiente para decretar que uma mulher que confeccionasse ou reparasse sapatos era "um sapateiro" e não "uma sapateira" (tomei a liberdade didática de incluir o artigo indefinido para ressaltar o exemplo, embora sabemos que, em russo, não há artigos).

Dessa forma, ela foi se tornando cada vez mais obtusa e radical na sua compreensão do que era certo ou errado em termos de língua. Feminista convicta, achava que todas as profissões deveriam ter uma forma feminina própria, mesmo para os casos de substantivos que já significavam os dois gêneros. Por exemplo, quando foi eleita presidente do «Komsomol» local, quis ser chamada de "presidenta". E queria que isso fosse registrado nos dicionários, embora ambas as coisas não fossem realmente necessárias - nem o sufixo forçado em "-a", nem o registro específico nos dicionários. Para o bem da humanidade e das árvores, essa vontade de Carina nunca foi realizada.

No período de russificação da União Soviética comandado pelo grande irmão Stalin, Carina foi enviada para trabalhar na Ucrânia, numa agência postal de Kiev. Normalmente fazia trabalho interno mas, por vezes, também entregava cartas. Nessa época inscreveu-se na «Patrulha Ortográfica Pan-Soviética da Língua Russa» e, como incumbência na nova agremiação, sempre que saía às ruas para entregar cartas, também procurava erros de ortografia em placas ou cartazes que atentassem contra o que considerava legítimo e bonito. Fazia isso sempre com muita determinação, ainda que não fosse sua função precípua e usasse o uniforme amarelo da agência postal e o crachá verde que a identificava como funcionária do correio.

Infelizmente, aqueles foram anos difíceis. Junto com a russificação e a coletivização forçada do campo, veio a Grande Fome - a «Holodomor» dos ucranianos. Mais do que um grande colapso do abastecimento de alimentos, foi uma estratégia usada por Stalin para dobrar e vencer a resistência na "Pequena Rússia". Estima-se que até 10 milhões de ucranianos tenham sido vitimados pela fome devastadora.

Um dia, saindo excepcionalmente para entregar cartas, Carina encontrou um cartaz com o dizer: "Katerina Gruberova - torneira mecânica". Prontamente consultou o «Novíssimo Vocabulário Ortográfico da Lìngua Russa» e verificou que, no verbete "torneira", não constava o sentido de "mulher que trabalha com tornearia", mas apenas o de "tubo com chave por onde escoa líquido". Ficou ultrajada, porque era uma profissão em ascensão no âmbito feminino - cada vez mais mulheres operavam tornos - mas não tinha forma adequada ao gênero registrada no seu livro sagrado. Ao mesmo tempo, também ficou exultante, porque poderia denunciar a tal da Katerina por usar uma forma feminina que não existia, não era abonada pelo vocabulário. Pensou que Katerina era muito ignorante, e que devia ter escrito "torneiro mecânico" no seu anúncio, mesmo sendo mulher.

Assim, entusiasmada, saiu correndo para denunciar Katerina ao posto local da «KGB», quando deparou-se com um homem rústico, de barba hirsuta e negra e de olhos amendoados. Ele lhe disse que se chamava Ivan, e que trabalhava no «Pravda» de Kiev; nas horas vagas era cineasta amador, mas nenhuma das ocupações lhe rendia proventos suficientes para comprar comida no mercado negro; estava muito faminto, apesar de sua saliente barriga. Desesperado, fitou-a com certa fúria e disse:

- Eu quero comer a carteira.

Carina ficou de súbito espantada, mas não tinha dúvida sobre o significado do que ouvira. Apiedou-se e, mesmo sem entender como um homem poderia comer um artefato sujo de couro, sacou de seu bolso a carteira para oferecer ao pobre homem. Pensou, na verdade, que ele queria dinheiro para comprar comida. Depois, limpou sua testa dos perdigotos que Ivan lhe arremessara com a manga do seu uniforme amarelo. Ficou parada, risonha, como que contemplando sua boa ação.

Mas todo o entendimento de Carina estava errado. Ivan sacou de sua calça uma lança feita de madeira, listrada em branco e preto como se tivesse sido extraída de uma claquete, e com esse instrumento rudimentar desferiu várias estocadas contra Carina, que caiu aos espasmos sobre a poça de sangue que lhe escorria. Ele, então, prostrou-se junto ao corpo e, com o mesmo instrumento, passou a dilacerar a vítima, para comer pedaços crus de sua carne magra e suculenta. E assim foi que morreu Carina, a patrulheira ortográfica que trabalhava como carteira, embora isso não fosse registrado no dicionário: morreu sem entender por que havia sido devorada.

2 de nov. de 2010

Os acreanos decidiram voltar ao fuso horário antigo. Devem ter lido meu texto sobre o assunto! :-)

Dona Guerda

Há certas coisas que vêm à minha mente de forma persistente. São pensamentos automáticos, involuntários, que povoam a minha cabeça quando não está focada em algum outro assunto. Não que eu pense neles o tempo todo, mas diariamente eles marcam presença. De forma geral, dizem respeito a pessoas; raras vezes a situações ou compromissos. Uma dessas pessoas é a minha mãe, dona Guerda, falecida faz 6 meses. Como hoje é dia de finados, resolvi escrever um pouco sobre ela, como forma de desabafo e, se possível, homenagem.
Devo confessar, em primeiro lugar, que não é fácil escrever sobre ela. Acredito que não tenho a visão imparcial e suficientemente esclarecida para poder fazer isso sem cair em erros de avaliação. Como filho, influenciado diretamente pelo convívio e criação, fica realmente difícil fazer uma descrição completa e justa. Dito isso, sigo adiante.
Uma das primeiras lembranças que tenho dela era da hora do meu banho. Primeiro numa banheirinha plástica cor-de-rosa, que seguido ia para o pátio, no gramado. Depois, numa maior e mais pesada, de metal, que ficava no banheiro mesmo. Lembro que, algumas vezes, não gostava quando ela enxaguava minha cabeça, ou por a água estar fria ou por escorrer xampu nos meus olhos. Lembro também que era ela que cortava meu cabelo, daquele jeito penico. Falando em cabelo, lembro que gostava de dormir mexendo nos cabelos dela, normalmente enrolando-os com meu indicador.
Quando ela me buscava da aula no 25, passávamos na loja de tecidos Sperb, que tinha um bebedouro de água bem gelada, que eu apreciava muito. Às vezes, nessa mesma volta para casa, ela me levava à padaria Brasil, para comer algum doce. Mas uma coisa de eu gostava muito mesmo era quando ela trazia, da banca do Araújo, um minipote de sorvete napolitano. Isso ela fazia quando voltava do trabalho e eu adorava muito. Acho que nesse período magoei-a pela primeira vez, pois devo ter deixado escapar, de alguma forma, que sentia um pouco de vergonha por ela ser mais velha que a média das outras mães e meus colegas acharem que se tratava da minha avó.
Acho que ela era uma mulher de criação bem germânica, no sentido que não sabia muito bem externar carinho e afeto aos filhos - fazia isso de uma forma subentendida, no dia-a-dia. Em compensação, nos rompantes de fúria e insatisfação, ela era bem agressiva, especialmente nas palavras ferinas. Acho que isso marcou muito a mim e aos meus irmãos, embora não fosse essa, certamente, sua intenção. No aspecto afetivo, ela deu carinho como aprendera a dar - com dedicação e abnegação.
A vida não foi muito generosa com ela. O casamento foi problemático, o dinheiro era sempre curto. Mesmo assim, ela não se entregava. Ajudava incansavelmente meu pai nas maluquices dele, consertando persianas, arrumando o carro - um Simca Rallye para lá de obsoleto, guardando quinquilharias. E cuidava, como podia e sabia, dos filhos. Quando ele morreu, achei que ela sucumbiria de tristeza. Mas seguiu forte, ainda que vez por outra se trancasse no banheiro para chorar. Não sei se chorava de saudade dele, ou de mágoa com a vida, ou das duas coisas.
Ela gostava de política, de história, de geografia. Sempre tinha uma opinião fundamentada sobre os assuntos atuais. Mostrava sua indignação com os governantes e seus desmandos e suas trapalhadas. Lembro que ela dizia, sem cerimônia, que fulano era 'lambe-cu do Fedorento", se referindo a algum repórter que elogiava o ex-presidente, que muito sabotou os parcos vencimentos que ela recebia da aposentadoria.
Ela gostava da língua francesa também, e quando soube que eu estava estudando, deve ter ficado bem feliz. Várias vezes nos telefonávamos e ela me perguntava em francês como eu estava. Mas ela, por outro lado, repudiava latim, e debochava com "qui, quae, quod, cuius, cuiis, cuius" quando eu falava nessa língua. Maldito método de aprendizado por tabuada que ela deve ter tido!
Acho que um erro que ela cometeu foi de se valorizar pouco. Era muito desleixada com suas próprias coisas, sua saúde, seu corpo. E não adiantava um filho tentar falar coisas desse tipo para ela; ela é que sabia, ela é que mandava. Aceitar a opinião contrária de um filho não era algo que fizesse com facilidade. Ao mesmo tempo, ela era generosa e desapegada - acho que abriu mão de muitas coisas em favor dos filhos, mas isso eu só percebi muito tardiamente. Por exemplo, acho que o dinheiro da venda do Simca foi, em boa parte, para a festa da minha 1ª comunhão. E quando ela se aventurou numa viagem de ônibus ao Paraguai comigo para eu comprar meu multímetro.
Muitas vezes me culpo por não ter sido mais atencioso, mais presente. Mas o ambiente familiar não ajudava muito e eu acabava fugindo, ou por pura covardia, ou para tentar me manter menos afetado pelas questões insolúveis. Com a morte dela, esse sentimento aparece com força, muitas vezes. Então tenho de me esforçar para lembrar que ela era, também, uma pessoa de difícil convívio, pouco flexível. A senilidade e o provável Alzheimer só acentuaram essas características, embora também tenham trazido uma afetuosidade pouco comum.
Somente no leito de morte eu disse que a amava, mas não sei se escutou. Queria ter alguma fé que me permitisse acreditar que ela ainda existe, em algum lugar, de alguma forma, e que está bem. E que ela soubesse o quanto eu a amo e o quanto ela faz falta. Sinto falta da sua voz suave ao telefone falando em francês; dos bolos que fazia nos finais de semana para minha visita, no período seguinte a minha mudança para Porto Alegre. Sinto saudade do seu colo, das suas opiniões, das suas histórias, que muitas vezes ouvi sem prestar a devida atenção.
Minha mãezinha, dona Guerda. Como ainda dói essa sua ausência. Eu não sei o que é a vida, eu não sei o que é a morte. Mas eu sei o que é amor de filho para uma mãe. E esse, a despeito da minha distância e ausência nesses últimos tempos, esse é grande, é o maior, é o máximo. Então é isso: de tudo sobre minha mãe, eu apenas acho, pois não tenho a capacidade de compreender tudo que se passou com ela. De tudo sobre minha mãe, eu sei que a amava.

31 de out. de 2010

Presiden...ta?

Pois a Dona Dilma venceu a eleição. Desejo, do fundo do meu coração, boa sorte para nossa futura presidente. Sim, presidente, que toma leite quente que dói nos dentes da gente. Ela, mulher, mãe, avó, será a primeira presidente - assim mesmo, com "e" no final - do Brasil. Porque a palavra "presidenta" pode até aparecer num ou noutro dicionário, mas é um aborto, coisa que a Dilma e o Serra prometeram combater. No caso, um aborto linguístico, uma excrescência.
Mas por que toda essa minha fúria contra uma palavrinha tão inofensiva? Porque ela fere, de forma ampla e irrestrita, a lógica, a tradição e a beleza da língua. Explico: o sufixo "-nte" que existe em português, como em presidente, pedinte, palestrante, gerente, vem de uma desinência verbal do latim. Ou seja, essas palavras são originadas, a princípio, de um verbo - em latim, essas formas verbais eram chamadas de particípio presente. Essa forma verbal tem um significado explicitamente ativo, ou seja, aquele que pratica a ação; por exemplo, presidente é "(aquele) que preside".
Acontece que, tanto em latim quanto em português, palavras com essa função e com essa forma são palavras que designam e abarcam completamente os dois sexos - masculino e feminino (em latim, na verdade, serve também para o neutro). Porque são, antes de tudo, formas verbais incorporadas em substantivos. Não por acaso, um susbtantivo desse tipo é chamado "comum de dois (gêneros)". Então, essa moda de efeminar o sufixo, metendo um "a" no final para designar pessoas do sexo feminino que executam a ação, é desnecessária, equivocada, sexista e incoerente. Pois se moda pega, a gerente de um banco será a "gerenta", e uma palestrante será uma "palestranta". Uma mulher grávida seria, então, uma "gestanta". Ridículo, não?
A mesma coisa poderia se pensar com o sufixo "-sta". A jornalista versus o "jornalisto", a dentista versus o "dentisto". É a esse esgoto que esses fanfarrões querem levar nossa língua? No juridiquês, forma pernóstica - e por vezes perniciosa - da língua, os doutos doutores, muitos sem doutoramento, inventaram que palavras com final em "-l" são masculinas, e derivaram daí as oficialas e as bacharelas. Ainda bem que o pincel não é título judiciário; passou incólume!

25 de out. de 2010

O nome das coisas

Várias vezes já fui questionado por que não se fala mais latim. Existem várias explicações boas sobre isso, mas o cerne da questão - e da resposta - reside muito mais na arbitrariedade da nomenclatura do que em história ou linguística.

Ninguém duvida de que os japoneses falam japonês, de que os árabes falam árabe, de que os gregos falam grego e de que os indianos falam hindu. E ainda de que os iranianos falam persa, embora o gentílico não ligue o povo à língua. Bom, todas essas línguas são tão ou mais antigas que o latim, nossa língua-avó, morta e enterrada - que descanse em paz! O que explica, então, a permanência dessas línguas e o desaparecimento do latim?

O latim era a língua do Império Romano e foi espalhado pelas províncias conquistadas. Com a queda de Roma, essas províncias passaram a países e as forças que unificavam a língua com o padrão da antiga capital do império deixaram de existir. É fácil perceber que, numa época de grande analfabetismo, de sociedades rurais e sem telecomunicações, cada país, cada povo, iria moldar o latim que falava de acordo com seu próprio contexto - cultura própria e a adquirida através do intercâmbio com outros povos. Assim, cada país fez o latim evoluir de uma maneira diferente. Quando o conceito de estado nacional se firmou, a língua tornou-se um fator de identidade nacional muito importante. Então, o nome da língua precisava, também, de acompanhar a nação e o nome "latim" passou a pertencer a um passado inglório de povo subjugado que não mais interessava. Dessa forma, no Reino de Portugal surgiu o português; em Castela, o castelhano, e assim por diante.

Isso é bem diferente do que aconteceu com as outras línguas anteriormente citadas. Cada uma dessas línguas era - e ainda é - língua nacional de um povo. Embora o persa falado hoje tenha pouca relação com a língua que Xerxes falava, ou grego de hoje seria ininteligível para Sócrates caso vivesse, essas línguas mantiveram seus nomes porque estão associadas a nações que mantiveram seus estados. Em todos os casos, adjetivos temporais dão a ideia do hiato existente: "grego clássico" versus "grego moderno"; "persa antigo" versus "persa moderno", etc. Mesmo no caso do árabe, que foi espalhado a um grande número de países, o processo de fragmentação e diversificação não ocorreu. O árabe, língua literária madura, acabou sendo adotado como língua nacional em cada estado convertido ao islã. E o fator religioso é um forte motivador da unidade linguística - desconsiderados os inúmeros dialetos existentes.

Então, sob certa perspectiva, é plausível considerar que ainda falamos latim. Um latim modificado, que atravessou vários séculos e revoluções de vários tipos. Mas lembremos que o latim que falamos é tão diferente do falado por Cícero quanto o grego moderno difere daquele que Platão proferia. E se tudo é grego, então tudo é latim! Aliás, ao estudar latim, ficamos impressionados com a quantidade de palavras que chegaram intactas ao nosso vocabulário, ou as que sofreram pouca mutação. Por outro lado, o latim que falamos é diferente do latim falado pelos hermanos, e do falado pelos fratellos.

Uma comparação que gosto de fazer é com o nome das cores: o azul, pouco comum na vida natural, é muito mais conservativo ao nome de suas variantes: azul claro e azul escuro são as básicas, além de azul celeste, azul marinho, etc. Já o vermelho pouco permanece com seu nome: um pouco mais claro fica "rosa"; um pouco mais escuro fica "vinho", "marrom". No fim, tudo é uma questão de darmos nomes às coisas.

13 de out. de 2010

Porto Alegre é demais!

A capital de todos os gaúchos é, sem dúvida, a cidade mais urbana do estado. Digo urbana em termos de afluxo de civilização, aglomerado de coisas, turbilhão de acontecimentos e todo o resto. Claro que contribui para isso ser também, disparadamente, a maior cidade nestes pagos. Infelizmente, a cidade não está a salvo de barbárie dos habitantes e provincianismo dos administradores, fazendo com que topemos com tristes marcos em todos os cantos dela.

A barbárie é, por exemplo, todo o grande volume de lixo que diariamente seus habitantes jogam nas vias públicas; assim é com as fezes de cachorros que são abandonadas pelas calçadas da cidade. E o vandalismo impune que picha e destrói casas e monumentos. Não sobra nada inteiro em Porto Alegre. Aqui, nada dura bonito por muito tempo. Li uma notícia sobre a exposição Cow Parade: esculturas bovinas foram pichadas, roubadas, queimadas. Tinha de ser em Porto Alegre!

O provincianismo é, por exemplo, a administração municipal construir um grande prédio, em pleno centro da capital, para abrigar os comerciantes ambulantes que infestavam as ruas e impediam os transeuntes de transitarem. Prédio grande, em pleno centro... talvez em outras cidades fosse construído algo bonito, algo que valorizasse a região, que chamasse a atenção pela beleza ou inovação, mas não em Porto Alegre. Não! Nunca! Em Porto Alegre essa construção deve ser tosca, deve parecer uma grande caixa reta e cinza de concreto. Bingo! Eis que temos o Camelódromo. Assim é também a duplicação de uma avenida adjacente a um parque; ela não pode simplesmente tomar área do parque, mas deve rasgar o parque ao meio, quebrar sua continuidade. E lá se foi o Parque Marinha do Brasil. Talvez à parte agora separada dêem o nome de algum notável, como se fosse um novo parque... Porto Alegre me dói!


24 de abr. de 2008

A Inter Coetera de Lula

O papa Alexandre VI nasceu em Valência. Embora naquela época ainda não existisse um país chamado Espanha, mas sim a união dos reinos de Castela e Leão e Aragão, o espírito nacionalista espanhol devia estar presente quando o papa deliberou, na famosa bula Inter Coetera, que todas as terras novas descobertas ou a descobrir a 100 léguas ao ocidente de Cabo Verde pertenceriam aos seus monarcas, "ilustres filhos caríssimos em Cristo".
A bula é um exemplo clássico da arbitrariedade com que pessoas determinam coisas. Doando terras "não cristãs" descobertas ou a descobrir para um determinado país, o papa ignorou a existência dos direitos de outros povos, ignorou fatos geográficos e a ambição dos outros países europeus envolvidos nas grandes navegações. Cedeu simplesmente aos interesses econômicos mercantilistas de Portugal e Espanha, que depois acertaram o limite exato da cerca nos tratados de Tordesilhas e de Saragossa. Mas arbitrários como a bula antecessora, foram solenemente ignorados pelos outros países, mormente França, Holanda e Inglaterra.
Pois uma bula moderna foi gerada no nosso congresso e agora sancionada pelo presidente da república. Trata-se da lei que unifica os fusos horários nos estados a oeste de Brasília, incluindo aí toda a imensa região norte. Resultado disso é que os acreanos passarão a ter, grosso modo, o meio-dia real a uma hora da tarde. Efeito oposto ao dos estados do extremo nordeste, como Paraíba e Pernambuco, que têm o meio-dia aparente às onze horas da manhã, por usarem o mesmo horário da capital federal.
O problema pode não parecer tão grave, já que horários são uma convenção humana. Mas é, devido à sua real motivação. Essa lei foi fecundada e gestada pelos executivos dos meios de comunicação teletransmitida, digam-se, das emissoras de rádio e televisão. Com o dever de adequar a grade de programação aos critérios de faixa horária e de faixa etária do público, as grandes redes de comunicação do país descobriram que é mais econômico mudar os fusos horários do que flexibilizar o que (e quando) as suas afiliadas replicam pelos cantões do Brasil. Assim, elas podem manter uma programação homogeneizada, monolítica, sem gastos adicionais. Economia para os grandes conglomerados, desconsideração às pessoas.
A divisão do mundo em fusos horários é uma convenção, mas traduz uma lógica: se uma localidade pertence a um determinado fuso, significa que seu horário real está mais próximo ao horário real do meridiano central daquele fuso do que de qualquer outro. No Brasil, essa regra vale cada vez menos. Crianças paraibanas e acreanas desconfiarão dos seus livros de geografia quando perceberem suas sombras estranhamente alongadas em pleno meio-dia.

10 de abr. de 2008

Primeira noite do JECrim no Olímpico

Primeira noite do JECrim no Olímpico
tem total de sete atendimentos

Com a eliminação do Grêmio na Copa do Brasil a partir dos penaltis perdidos no jogo contra o Atlético Goianiense, diversos incidentes chegaram ao Juizado Especial Criminal que começou a funcionar no Estádio Olímpico na noite desta quarta-feira (9/4).

Em um dos casos, a Brigada Militar tentou conter a torcida. Um Sargento da Polícia Militar e um torcedor acabaram sendo direcionados ao Juizado. O PM sustentou que foi agredido com um soco durante o tumulto por torcedor que aparentava estar alcoolizado. Mediante um pedido de desculpas, o policial expressou compreensão de que o torcedor estava alterado devido à derrota e ambos chegaram a um acordo, com arquivamento do expediente.

Após, uma torcedora que mora com a mãe, "mas não faz nada", nem estuda ou trabalha, foi encaminhada por desacato à autoridade policial. Ela rejeitou a proposta de transação penal oferecida pelo Ministério Público para pagamento de cesta básica no valor de meio salário mínimo, embora ciente da possibilidade de ser processada criminalmente pelo ocorrido. A ação será distribuída para um dos Juizados Especiais Criminais do Foro Central.

Um outro caso foi o de um jovem de 20 anos acusado de causar tumulto. Ele é recepcionista, mora com a mãe, terminou o segundo grau, mas não estuda mais. Aplicando a Lei dos Juizados Criminais Especiais, o Promotor de Justiça ofereceu a proposta de transação. Foi aceita a obrigação de pagamento de multa de R$ 200,00 em favor de uma entidade beneficente. O Juiz esclareceu ao jovem que se os valores não forem pagos por meio das guias que foram entregues, poderá responder processo criminal.

Final dos trabalhos

A 1h30min da manhã desta quinta-feira, os trabalhos do Juizado foram encerrados. Os demais casos que surgirem serão encaminhados ao Plantão 24 horas do Foro Central.

O Corregedor-Geral da Justiça, Desembargador Luiz Felipe Brasil Santos, acompanhou os trabalhos juntamente com os Juízes-Corregedores Vera Feijó e Sandro Luz Portal.

Apoiaram o funcionamento do JECrim Mário Krzisch e Denise Nenê de Souza, Coordenadores de Correição da Corregedoria-Geral da Justiça; Eduardo Bruno Vaz Van Nyvell, Oficial Ajudante designado e a estagiária Lílian Tarakdian Dambros, do Foro Regional do Sarandi; Ricardo Luís Lichtler e Leonardo dos Santos Conca, da equipe do suporte do Departamento de Informática.

Leia notícias anteriores sobre o funcionamento do JECrim:

Realizadas primeiras audiências
no Juizado Especial Criminal no Olímpico

Rojão lançado em direção ao campo foi quarto caso atendido

(Adriana Arend e João Batista Santafé Aguiar)

28 de mar. de 2008

Ode a Porto Alegre (Deus lhe pague)

Por essas fachadas pichadas
que fico a assistir
Pelo assalto no parque
que devo previnir
Pelos cocôs nas calçadas
que vivem a surgir
- Deus te pegue

Por aqueles no palanque
que só fazem engrupir
Pelos outros no paço
Soídos a mentir
Pelas coisas não feitas
esperando o porvir
- Deus te leve

Pelos buracos na rua
que nos fazem cair
Pelos teatros sem graça
que vivem a repetir
Pelos bueiros imundos
que já vão entupir
- Deus te guarde

Pelo flanelinha sem dente
que nos vai extorquir
Pela vontade latente
de abandonar e fugir
Pelo desânimo pungente
de lutar e sorrir
- Deus nos poupe

31 de jan. de 2008

Obsoleto

O mundo mudou. Na verdade, está sempre mudando. "Tudo apenas se transforma" - disse Lavoisier. Mais que isso, tudo sempre se transforma. Mas ele estava enganado quanto a um ponto: nas transformações, coisas podem ser criadas, coisas podem ser perdidas. Claro que não em relação à matéria e à energia, que talvez seja o binômio que mais interesse à investigação científica. Mas naquelas outras coisas, talvez mais próximas da alma humana, as transformações podem ser tão profundas que o resultado não seja reconhecido; que o produto não mantenha relação com a matéria prima. Se mudam os rótulos, então há perda e criação, destruição e construção, crepúsculo e alvorada.
O mundo mudou. A órbita da Terra diminui; a Lua se afasta. A América segue para o oeste. O nível do mar sobe, mas o mar de Aral encolheu. As estações não são mais bem definidas e Porto Alegre nunca mais teve enchente - leite vigiado não derrama! As cidades cresceram, distritos se emanciparam. A Alemanha unificou-se, e o Iêmen também. A União Soviética não existe mais. A Birmânia e o Zaire mudaram seus nomes - mas será que mudou muita coisa? O Ínter também é campeão mundial. As pessoas que mal podiam comprar computador nas lojas, agora compram das lojas pelo computador.
O mundo mudou. Brizola morreu e, pasmem, Roberto Marinho também. Paulo Autran, Luciano Pavarotti, Saddam Hussein... Outras pessoas também morreram, mas muitas outras nasceram. Aliás, o nascimento e a morte de humanos devem ser os fenômenos mais registrados do mundo. Talvez só os de ratos nos ganhassem, se eles fizessem esse tipo de registro.
Nem tudo mudou. Ainda há lugares belos no planeta. Ainda há pessoas passando fome. Ainda há guerras. Ainda há pessoas mentirosas e corruptas que lutam para tirar o poder de outras pessoas mentirosas e corruptas. E Niemeyer continua vivo e fazendo projetos. Paixões brotam, amores morrem, e ódios se alimentam, como sempre.
O meu mundo mudou. Certezas que eu tinha viraram dúvidas. Outras, esqueci. Relações mudaram, porque as pessoas mudam. Elas mudam seus objetivos, seus valores, suas companhias. Nem sempre para melhor. Pessoas entram e saem das vidas umas das outras, mas às vezes não estive preparado para essas transições. Então, deslumbrado com a entrada triunfal e a morada majestosa, fui surpreendido com a saída repentina e o vazio frio que se espalhara pelos salões. A festa tinha acabado, a cerveja esquentou e as pessoas foram embora.
O mundo sempre muda e nada do que passou voltará a ser. Não como antes. Mas eu não me preparei para isso e fico agora contemplando diariamente os estilhaços que me sobraram. Sinto-me obsoleto, esquecido num canto, chorando as lembranças de um tempo ultrapassado.

29 de out. de 2007

Sina

Quem nasce lagartixa nunca vira jacaré.
Mas, vez por outra, perde o rabo!

19 de out. de 2007

Estado e religião

Sou católico de batismo, mas não professo a fé há muitos anos. Entre os vários rótulos que podem me atribuir, considero "agnóstico" o menos pretensioso. Dito isso, quero abordar um assunto em que penso seguidamente: a relação entre estado e religião. Começo o texto refletindo sobre as causas da tão propalada harmonia inter-religiosa que existe no país.
É fato que ela existe. Mas não sei se sua causa principal seja, de fato, a boa vontade ou a tolerância inata do brasileiro. Já fomos um país oficialmente católico e ainda o somos estatisticamente. Mas que tipo de catolicismo praticamos (pretérito perfeito e presente) aqui? Um catolicismo lânguido, sem muita vontade com suas obrigações, ao exemplo do que somos como sociedade em geral. Parece-me que até na religião tratamos as questões com "jeitinho".
Muito se tem falado sobre essa praga cultural nacional, que vai do burlesco furar fila do cinema até os grandes escândalos de corrupção em Brasília, passando pela cumplicidade com a pirataria e o contrabando e pela complacência, por vezes pasmada, a tudo isso. Essa indiferença, quase generalizada, que faz com que não batalhemos cotidianamente por uma sociedade melhor, calcada no exemplo individual. Talvez esse "tanto fez, tanto faz", transposto ao campo religioso, é que tenha nos levado a essa convivência harmoniosa. Sim, porque me lembro muito bem de ler, nas cartilhas de catequese e de crisma, condenações veementes a outros tipos de manifestações religiosas, mormente ao espiritismo e ao candomblé. Por que essas condenações nunca tiveram um efeito belicoso? Creio que é pelo mesmo motivo que leva o católico brasileiro médio a não ir à missa, a não comungar, a não confessar, a não pagar o dízimo. Se for assim, o jeitinho, através de seu viés de indolência religiosa, acabou por produzir a boa convivência entre credos tão distintos,
inclusive o sincretismo.
Outro ponto que me chama atenção é a questão dos direitos civis. Temos avançado muito nesse campo, e há muito ainda a ser discutido e decidido. Mas fazemos isso a despeito das orientações de Roma. Divórcio e inseminação artificial são alguns dos exemplos que me vêm à memória agora. Mas vale dizer que as âncoras papais não são os únicos entraves ao avanço das conquistas civis. Lembro um caso de médicos que precisaram de garantir na justiça uma transfusão de sangue para um menino criticamente doente, porque a agremiação religiosa de seus pais considerava tal ato ofensivo a deus, o que os fez proibirem a transfusão.
Isso posto, vale dizer que estamos muito mais avançados em jurisprudência do que em legislação, uma vez que nossos legisladores têm o débito moral com seus eleitores e, muitas vezes, não avançam em questões cruciais por temerem comprometer suas reeleições. Nesse contexto, causa-me preocupação o crescimento de certas linhas neopentecostais efusivas, especialmente quando associadas a meios de comunicação em massa. Em suas pregações, os pastores e bispos, muitos autoproclamados, não escondem seu desamor ao catolicismo, à umbanda e a tudo que for diferente e não lhes pagar o dízimo. E sua condenação veemente atinge, obviamente, tudo que não se encaixar nas leituras inspiradas que fazem da bíblia, muitas vezes literais.
Diante desse cenário, cabe a pergunta: a harmonia religosa será mantida caso cristãos exaltados passem a ser maioria da população? Até que ponto os direitos civis estabelecidos estão garantidos? Até onde é possível manter um estado de direito - e de fato - laico, se a população entrar em ebulição ou conflitos religiosos? É certo que o estado brasileiro ainda sofre de lacunas na sua laicidade, como os feriados católicos e os crucifixos suspensos na maior parte das repartições públicas. Ou ainda como a lei estadual que permite sacrifício de animais para oferenda em cerimônias de origem africana. Mas felizmente, a ingerência religiosa acaba por aí. Por enquanto.

18 de out. de 2007

Dúvidas

Até que ponto podemos nos entristecer com uma pequena decepção?
Até que ponto pequenas decepções seguidas podem afetar uma relação?
É mesmo possível não esperarmos nada de alguém próximo? É esse o ideal?
Laisse faire, e é lucro o que vier!
Quando não hesitamos em fazer algo que pode aborrecer a outra parte, é por que confiamos na solidez da relação, ou por que já não nos importamos com o (impacto no) outro?

Onde fica, afinal, o botão do "foda-se"?

9 de out. de 2007

Dois lados

A beleza
De não se mandar no coração
É que os sentimentos
Não podem ser comprados.
A tristeza
De não se mandar no coração
É que os sentimentos
Não podem ser cobrados.

A vida é um cafife sentimental!

19 de set. de 2007

SVQR: O Senado e a Vergonha de Roma

Com os sucessivos escândalos vindos do Senado Federal, a casa mostra sua incapacidade de lidar com eles de uma forma eficaz e que esboce algum tipo de apego à ética política e à honra. O corporativismo retórico acaba por gerar mais escândalos, paralisa os trabalhos que deveriam ser executados e expõe ao ridículo (ou ao deplorável) um dos componentes do legislativo federal.
Mais do que isso, põe em xeque a própria razão de ser do Senado. Vários meios de comunicação nacionais, mormente revistas, colocam em pauta a possibilidade de extinção do Senado. Obviamente a reação dos senadores foi exaltada e contrária a qualquer menção nesse sentido. Não poderia ser diferente, pois a norma de comportamento de seres humanos indica que não gostam de alterar seu status quo se este lhes for proveitoso. Ora, é sabido que muito executivo de multinacional não ganha um salário tão polpudo quanto o dos senadores. E certamente quase nenhum deve ter um horário de trabalho tão flexível e exíguo. E a estabilidade por 8 anos...
Mas, afinal, qual a função do Senado? A menos de funções específicas constitucionais, o Senado faz exatamente o mesmo que a Câmara: legisla (faz leis) e fiscaliza o executivo. E em relação às funções específicas constitucionais, elas couberam ao Senado porque já existia o Senado quando a Constituição foi feita. Um senador não tem DNA especial ou formação acadêmica superior a um deputado para que tais funções devam caber somente aos senadores. Tanto é verdade, que a cada eleição, muitos deputados almejam virar senadores!
Claro que, em vista disso, a retórica retumbante e desesperada dos senadores joga frases de efeito aos ouvidos moucos da população, para que a impressionem e tentem impedir o acolhimento da idéia. O discurso agarra-se em "valores democráticos" e "cláusulas pétreas" da Constituição, como seriam o pacto federativo e o equilíbrio regional.
Pois o Senado é justamente um fator de desiquilíbrio na representatividade regional! A região Sul, por exemplo, tem 13% da população do país e 11% dos senadores. A região Nordeste tem 25% da população, mas 33% de senadores. Mas não pára por aí: a região Norte, que tem somente 7% da população, tem milagrosos 26% do Senado Federal! Isso não é acalentar a desigualdade regional?
Pois bem. Em resposta a isso, argumentarão que os senadores representam os entes federados e, portanto, essa representatividade correspondente à população cabe à Câmara. Balela! Primeiro, porque as fórmulas empregadas para a distribuição de deputados também causam distorção, ainda que em menor grau. Segundo, porque o princípio de eleição de um senador é exatamente o mesmo que elege um deputado: votação direta do povo. Claro, no caso da eleição de um senador, contam somente os votos individuais recebidos e não há coeficiente eleitoral. Mas é o mesmo povo que vota nos deputados que elege os senadores. Não há vinculação nenhuma, por exemplo, entre o senador eleito e o governador do estado de origem, ou entre o senador e a respectiva assembléia legislativa; no fim, é apenas mais um político eleito para estar em Brasília. A representação propalada do ente federado fica no plano da divisão dos gabinetes, mas perde-se completamente na origem.
A questão de existir ou não Senado é bem mais importante e menos intocável do que parece. Não é mais grave ou visceral, nem menos fundamental do que escolher entre presidencialismo e parlamentarismo, escolha que já fizemos. E há de se lembrar que há muitos países que funcionam muito bem com um simples congresso unicameral. No fim, o Brasil possui duas câmaras legislativas que conflitam e barganham diferente e inconsistentemente com o executivo, isso quando não os fazem entre si. É custo em dinheiro, é custo em tempo. E neste país, há falta dos dois!

19 de jul. de 2007

O Sermão da Sexagésima Segunda

Abaixo consta o enunciado da questão 62:
Um programa antivírus pode detectar vírus através das suas assinaturas, procurando-as em todos os arquivos armazenados em um computador. Assim sendo, considere as situações propostas abaixo:
I - A base de dados das assinaturas não vem sendo atualizada freqüentemente.
II - Arquivos estão sendo armazenados no computador de forma compactada.
III - Arquivos estão sendo armazenados no computador de forma cifrada.
Quais delas poderiam impedir o antivírus de detectar um vírus?
(A) Apenas I
(B) Apenas II
(C) Apenas III
(D) Apenas I e III
(E) I, II e III

Como alternativa correta a esta questão, publicada no gabarito da prova, foi apresentada a letra “D”, indicando que apenas as situações I e III impedem o antivírus de detectar um vírus.
Certamente a intenção da Comissão do Concurso ao fazer a questão foi testar o conhecimento do candidato sobre a possibilidade de as ferramentas de antivírus poderem esquadrinhar um arquivo compactado, examinando cada um de seus componentes à procura de vírus.

Entretanto, a alternativa assim posta como correta, por ingenuidade, descuido ou esquecimento, ignora o fato de que as ferramentas de antivírus não podem fazer a análise de arquivos compactados se os mesmos estiverem protegidos por senha.
Senão vejamos a informação que se encontra no sítio da Computer Associates - CA, reconhecida empresa de tecnologia da informação, numa página que instrui sobre como usuários devem enviar exemplos de vírus para análise (em http://www3.ca.com/securityadvisor/newsinfo/collateral.aspx?CID=33514):

“...
Additional instructions for compressing samples:
Please compress and password-protect your file before submitting it to our researchers. If you do not
compress and password-protect the file, it may be intercepted or blocked and fail to reach us.
....”

Bem, o texto acima diz, em bom português, que o usuário deve “comprimir e proteger por senha (grifo original) seu arquivo antes de submetê-lo aos pesquisadores da empresa. Se o usuário não comprimir e proteger por senha o arquivo, ele pode ser interceptado ou bloqueado e falhar em alcançar a empresa.”.

Ora, isso implica dizer que a proteção por senha impede a análise do conteúdo do arquivo compactado, e a sua possível interceptação. Ainda neste sentido, podemos ver o que a empresa Techs, sediada em Araraquara, explica aos seus usuários pela proibição do envio de arquivos compactados protegidos por senha, no item de letra “j”, dentro da sua página de perguntas mais freqüentes (em http://www.techs.com.br/EmailProtegido/Geral/Faq.shtm#j)

j) Por que não consigo enviar arquivo(s) compactado(s) com senha? Recebo o erro PASSWORD PROTECTED.
Por medidas de segurança não permitimos que arquivos compactados com senha (possívelmente podem conter vírus) sejam enviados através dos nossos servidores.

A restrição imposta por essa empresa, talvez drástica, tem um único mas insofismável motivo: arquivos compactados e protegidos por senha não podem ser analisados por uma ferramenta de antivírus.
Diante de todo o exposto, fica evidente que arquivos armazenados no computador, ou enviados pela Internet, armazenados de forma compactada podem impedir sim que a ferramenta antivírus detecte um vírus dentro deles.

A proteção por senha em um arquivo compactado impede a perscrutação ao(s) seu(s) componente(s), permitindo apenas que informações mais gerais como nome e tamanho do(s) mesmo(s) sejam acessados.

Assim sendo, é fácil perceber que o enunciado da questão foi insuficiente para contemplar as possibilidades que envolvem o processo de compactação de arquivos, bem como a característica – cada vez mais comum – de proteção através de senhas.
Por tal imprecisão, o candidato com o conhecimento adequado exigido para este concurso pode ter ficado hesitante em decidir a alternativa correta e, por fim, pode ter marcado – e frisemos que acertadamente – a alternativa “E” como correta, que abrange também a situação exposta de número II.

É possível a Comissão pensar no contra-argumento de que a proteção por senha esconde, na verdade, um processo de criptografia, fato este que portanto seria enquadrado pelo item III. Mas novamente surge a formulação do enunciado da questão: “armazenados na forma compactada”. Quando um software de compactação é utilizado, a compressão dos dados é sua finalidade primeira, fundamental. Prova evidente disso é que justamente são chamados “programas de compactação” e não “programas de cifragem”. A criptografia simétrica aí empregada, mormente o Advanced Encryption Standard ou correlatos, nada mais é do que um instrumento a se conseguir o benefício adicional da proteção por senha, ou seja, uma atividade-meio, acessória, secundária. E prova cabal disso é que os arquivos compactados e protegidos por senha, vale dizer, cifrados, mantêm as mesmas extensões e associações de programas daqueles que simplesmente são compactados sem processo adicional, porque o fator importante, determinante, suficiente e necessário é estarem compactados, estando ou não cifrados. Destarte, essa alegação não tem consistência e, não sendo consistente, não faz mais do que mostrar, outra vez, a formulação incompleta, equivocada e ambígua da questão.

A Comissão também não pode usar tal argumento porque o Edital de Abertura do Concurso não exige do candidato conhecimento aprofundado sobre programas de compactação. Na página 10 do mesmo, vemos a única referência do programa da prova à questão de antivírus:
Segurança da Informação - Conceitos gerais de Segurança da Informação. Noções de Normas ISO para gestão de segurança da informação. Proteção contra vírus e outras formas de softwares ou ações intrusivas. Noções de criptografia, assinatura e certificação digital.
Então, de um lado temos a informação comprovada de que os programas antivírus não conseguem fazer a análise de arquivos compactados protegidos por senha e, de outro lado, nem o programa da prova do concurso, tampouco a bibliografia por ele apresentada, fazem referência aos detalhes de funcionamento dos programas de compactação. Então, o candidato preparado com o conhecimento exigido para a prova houve de considerar a assertiva II pertinente à resposta da questão. Porque não lhe foi demandado conhecimento sobre os meandros dos aplicativos de compactação, mas tão somente sobre as formas de proteção contra vírus.

Se a intenção do formulador da questão foi versar sobre a capacidade de os antivírus poderem descompactar arquivos para a verificação das assinaturas, deveria ter ele explicitado, de alguma forma, que os arquivos haviam sido submetidos a um puro e simples processo de compactação, sem procedimentos adicionais. Ao não fazê-lo, citando apenas “armazenados em forma compactada”, deixou questão em aberto se os arquivos referidos estão, ou não, protegidos por senha, permitindo ao candidato considerar fundamentadamente ambas as hipóteses.

Além disso, se o algoritmo de compactação for inédito, experimental ou estranho, e o computador não lhe oferecer suporte para a descompressão dos dados, a ferramenta de antivírus também nada poderá fazer para descompactar arquivos, impossibilitando a varredura dos mesmos. E nesse caso não é possível argumentar-se qualquer coisa. Algoritmos de compactação têm finalidade e funcionamento totalmente diferentes de algoritmos de cifragem. Entretanto, se o algoritmo compactador não for reconhecido pelo sistema operacional do computador ou pela ferramenta de antivírus, pelos motivos acima descritos, a mesma não detectará nada no arquivo assim compactado, ainda que infectado.

Pode-se citar como exemplo irrefutável desse cenário o recebimento e arquivamento de um arquivo compactado com o sistema ARJ. Tal sistema era muito comum nos meios informáticos nas décadas de 1980 e 1990, mas caiu em desuso, suplantado pelos concorrentes. Ora, ainda existem arquivos compactados nessa forma, mas os computadores atuais não têm capacidade de descomprimi-los de forma automática, nem os antivírus de detectarem vírus dentro deles. No entanto, são pura e simplesmente arquivos compactados.

De uma forma ou de outra, a questão falha ao não especificar em que condições o tal armazenamento “em forma compactada” foi realizado. Se ao candidato faltam informações e definições, às respostas sobram alternativas. E essa falta de clareza não se admite em uma prova de concurso público.

Assim sendo, uma questão que, por um lado, contém em seu enunciado uma lacuna de precisão e, de outro, uma resposta totalmente questionável porque admite, sem discussão, também outra resposta, deve ser imperiosamente anulada.